Artigo Aperte o cinto, calma. Um tremor aqui, ali. Abalos justamente na área de segurança, do Poder no qual confiamos a estabilidade institucional. Não é o primeiro; certamente nem o último. O Brasil entorta, verga de um lado, de outro, mas não cai. O problema é que pode virar piada. Sem graça. Pior, religiosamente. Mantenha o cinto afivelado, porque a atual balançada é mesmo perigosa. Pode escalar mais neste momento eleitoral em que tem um monte de gente querendo tirar uma lasquinha – para se dar bem ou se safar.
De repente, um mal-estar, o medo e o receio (pelo menos de quem já viveu para ver durante duas décadas a escuridão) retornam. Arrastando a construção e as amizades de um bandido se declarando banqueiro e erigindo o que agora sabemos revelado como o maior rombo e escândalo da história recente do Brasil, envolvendo bilhões do meu, do seu, do nosso dinheiro. Do dinheiro público usado nesta construção que envolve toda a República, os Poderes, com tijolos de luxo e mordomias, telhados e janelas de vidro, amizades e caminhos insondáveis. Com piscinas para muita gente ainda se afogar, cercadas por jardins de corrupção. Pode não sobrar pedra sobre pedra, e o lamaçal avançar se não forem tomadas em tempo hábil as iniciativas para escorar esse “prédio”.
O milenar livro do I-Ching, em seu hexagrama 51, ensina com propriedade a diferença entre tremor e temor. O tremor, o abalo estrutural, a crise; o temor, a resposta interna diante do poder do que ainda é invisível. Neste momento, vivemos os dois. O I-Ching, o Livro das Mutações, é um oráculo criado há mais de três mil anos como um guia para uma vida ética, manual para governantes e pessoas, orientador do futuro pessoal e do Estado, uma obra circular na qual 64 hexagramas, de guerra e paz, se movimentam continuamente, forças do yin (a sombra) e do yang (a luz). É bom lembrá-lo neste momento em que temos tanta sede por soluções e lideranças hábeis, que infelizmente nos faltam. Sobram, contudo, meias-medidas, explicações pouco convincentes das desonras à tona. Falação. Diante de nossos olhos. E ouvidos.
Assistimos, ainda, ao filme de terror da campanha eleitoral, em que prometem “mudar o Brasil”, e nos dá vontade é de arrumar mala e cuia. Nunca apareceu tanta gente como agora com propostas vazias defendendo as mulheres, que continuam a morrer desprotegidas. Cuidado. Ouvimos palavras como soberania ditas em frases bobas por quem nem ao menos sabe o seu significado, evocando os dois patinhos na lagoa. Com cavalos azarões à solta, e no mesmo terreno da construção que balança.
Marli Gonçalves é jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do site Chumbo Gordo eautora de Feminismo no Cotidiano
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