Cotidiano
FOTO: Fernandes | DGABC

Internet é lugar de aparência clara como um dia de primavera. Quem conhece há de concordar. Não fosse o seu lado obscuro, até que a navegação ali encontraria sempre águas calmas. Basta, no entanto, que se dê um passeio pelos seus meandros para se notar que nem tudo ali remete à calmaria.
Falo de um lugar em que muitos olhos e ouvidos perscrutam dia e noite em busca de algo que lhes preencha o vazio que tomou conta de suas vidas desde a invenção desta e de outras modernidades. E o problema está justamente no fato de grande parte dos navegantes deste mar imenso, remar por entre a sua densa névoa à procura de tesouros que não levam necessariamente à evolução humana.
Porque eu lido com a palavra é que estou sempre atento aos seus passos e aos olhos ávidos que se voltam para ela, sobretudo nesse território. Violência, por exemplo, é termo encontrado fartamente ali. Vem na forma de palavra escrita, falada ou na forma de imagem. Sempre associado a todo tipo de atos insanos que a mente humana é capaz de conceber e pôr em prática. O substantivo em questão também está intimamente relacionado com tirania, mercadoria que se vende por atacado nesse vasto mundo virtual. Por isso, inicio o texto falando da rede.
Tenho visto, pois, aqui e acolá matérias extensas sobre as mazelas humanas que visam unicamente promover o sofrimento alheio, sem peso na consciência, sem arrependimento. É evidente que nem só na rede propaga-se o mal e incita-se o ódio.
Li ainda hoje uma notícia sobre um teste feito com um foguete capaz de percorrer rapidamente grandes distâncias no planeta. A intenção de quem o construiu certamente não está relacionada com o transporte de passageiros, mas com o transporte de uma bomba com poder de transformar em pó grandes cidades, num estalar de dedos. E, todos sabemos, notícia assim faz bater com pressa o coração sanguinário, desejoso de fatos que inspiram a crueldade.
Num país da África essa mesma tirania se fez presente na ação de pessoas que destruíram e mataram só para meter as mãos no poder. E o conflito encheu de patrocínio as manchetes, que aproveitaram o ensejo, cientes de que o fato logo cairia no esquecimento, como tantos outros.
Tal qual esta, há guerras em curso até hoje que, de tão velhas, só são lembradas por aqueles que vivem o drama dia após dia, ano após ano. Gente que, por certo, não criou o conflito. A tirania, nesses casos, tornou-se corriqueira e, por isso, ganhou ares de normalidade, sobretudo, para quem a pratica.
Cenas de menor proporção, mas com o mesmo requinte de crueldade, vi, há pouco na TV. Policiais, daqui deste triste rincão, agredindo a tapas uma mulher que correra em busca de socorro, uma vez que suspeitava estar sendo perseguida por alguém. Ela só não sabia que seria melhor atendida pelo perseguidor.
A tirania se expressa, pois, de variadas formas, em variados lugares, angariando cada vez mais adeptos. Talvez um dia, de tão grande e forte, a tirania acabe por engolir-se a si mesma.
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