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Em média, apenas 2% a 3% das fêmeas de Aedes aegypti são portadoras do vírus da dengue, o que torna necessário um grande número desses insetos para que a capacidade de contágio humano atinja níveis alarmantes; contudo, algumas condições favorecem essa evolução.
Os ovos do mosquito precisam de imersão de um a dois dias em água limpa para eclodirem e, em temperatura e umidade elevadas, o ciclo até sua forma adulta dura, em média, uma semana, o que faz do nosso verão chuvoso o cenário perfeito para a reprodução.
Embora, em algumas situações, as fêmeas possam se deslocar entre 500 e 800 metros de seu local de nascimento, habitualmente esse mosquito voa em um raio de 100 a 300 metros ao longo de uma vida de 30 a 45 dias.
O panorama supracitado faz compreender que não basta eliminar nossos potenciais reservatórios de águas da chuva; todos os nossos vizinhos, próximos e distantes, devem observar os mesmos cuidados.
Uma vez transposta essa etapa, as fêmeas capazes de transmitir a dengue o fazem por picadas, alimentando-se de sangue e deixando os vírus no hospedeiro por meio da saliva. Aquelas que nascem sem portar o vírus podem adquiri-lo ao picar infectados, tornando-se transmissoras em poucos dias e, adicionalmente, gerando ovos infectados em um ciclo virtuoso para a espécie.
Muito embora de 20 a 50% dos indivíduos infectados não desenvolvam queixas, a apresentação mais comum da dengue inclui febre alta, dores no corpo e nas articulações e dor atrás dos olhos, sintomas que ocorrem entre três e 15 dias após a picada e permanecem, em média, por cinco a seis dias, podendo ser tratados com analgésicos (nunca anti-inflamatórios) e hidratação generosa.
A forma grave, mais temida e eventualmente mortal, decorre com mais frequência da reinfecção, ocorre entre o terceiro e o sétimo dia do início dos sintomas, coincide com a diminuição do estado febril e não se resolve com medidas simples.
Os sinais de alerta que impõem a necessidade de procurar atendimento médico incluem dor abdominal intensa, tontura ao se levantar, sangramentos espontâneos e confusão mental.
Enquanto aguardamos a vacina do Butantã, a imunização com a Qdenga, do laboratório Takeda, é indicada para indivíduos de 4 a 60 anos, mas a limitação quantitativa faz com que o SUS (Sistema Único de Saúde), ao menos por enquanto, a disponibilize apenas para a faixa etária de 10 a 14 anos, grupo com alta taxa de hospitalização.
Percebe-se que continuamos enfrentando o óbvio ciclo do mosquito, o que nos deixa com apenas uma opção: procurar e eliminar seus criadouros.
Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia.
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