Sabores & Saberes Titulo Sabores & Saberes

Dengue: continuamos enfrentando o óbvio

Antonio Carlos do Nascimento
26/01/2026 | 08:56
Compartilhar notícia
 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Em média, apenas 2% a 3% das fêmeas de Aedes aegypti são portadoras do vírus da dengue, o que torna necessário um grande número desses insetos para que a capacidade de contágio humano atinja níveis alarmantes; contudo, algumas condições favorecem essa evolução.

Os ovos do mosquito precisam de imersão de um a dois dias em água limpa para eclodirem e, em temperatura e umidade elevadas, o ciclo até sua forma adulta dura, em média, uma semana, o que faz do nosso verão chuvoso o cenário perfeito para a reprodução.

Embora, em algumas situações, as fêmeas possam se deslocar entre 500 e 800 metros de seu local de nascimento, habitualmente esse mosquito voa em um raio de 100 a 300 metros ao longo de uma vida de 30 a 45 dias. 

O panorama supracitado faz compreender que não basta eliminar nossos potenciais reservatórios de águas da chuva; todos os nossos vizinhos, próximos e distantes, devem observar os mesmos cuidados. 

Uma vez transposta essa etapa, as fêmeas capazes de transmitir a dengue o fazem por picadas, alimentando-se de sangue e deixando os vírus no hospedeiro por meio da saliva. Aquelas que nascem sem portar o vírus podem adquiri-lo ao picar infectados, tornando-se transmissoras em poucos dias e, adicionalmente, gerando ovos infectados em um ciclo virtuoso para a espécie. 

Muito embora de 20 a 50% dos indivíduos infectados não desenvolvam queixas, a apresentação mais comum da dengue inclui febre alta, dores no corpo e nas articulações e dor atrás dos olhos, sintomas que ocorrem entre três e 15 dias após a picada e permanecem, em média, por cinco a seis dias, podendo ser tratados com analgésicos (nunca anti-inflamatórios) e hidratação generosa.

A forma grave, mais temida e eventualmente mortal, decorre com mais frequência da reinfecção, ocorre entre o terceiro e o sétimo dia do início dos sintomas, coincide com a diminuição do estado febril e não se resolve com medidas simples. 

Os sinais de alerta que impõem a necessidade de procurar atendimento médico incluem dor abdominal intensa, tontura ao se levantar, sangramentos espontâneos e confusão mental. 

Enquanto aguardamos a vacina do Butantã, a imunização com a Qdenga, do laboratório Takeda, é indicada para indivíduos de 4 a 60 anos, mas a limitação quantitativa faz com que o SUS (Sistema Único de Saúde), ao menos por enquanto, a disponibilize apenas para a faixa etária de 10 a 14 anos, grupo com alta taxa de hospitalização.

Percebe-se que continuamos enfrentando o óbvio ciclo do mosquito, o que nos deixa com apenas uma opção: procurar e eliminar seus criadouros.

Antonio Carlos do Nascimento é doutor em endocrinologia pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;