Ensino superior Reitor diz que capacitação do corpo docente e dedicação dos estudantes colocaram curso entre os oito melhores das escolas médicas privadas
Vice-reitor David Feder, o reitor Fernando Luiz Affonso Fonseca e o ex-reitor David Uip durante conversa sobre os resultados (FOTO: Claudinei Plaza/DGABC)

Qualidade dos professores, interesse dos alunos e oportunidades de estágio em hospitais de referência na região levaram o Centro Universitário da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) a obter a nota 4, a segunda melhor, na primeira edição do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica), cujo resultado foi divulgado no dia 19. Essa é a análise do reitor Fernando Luiz Affonso Fonseca.
“É uma nota quatro com gostinho de cinco”, disse Fonseca em entrevista ao Diário. Dos 115 alunos da FMABC que realizaram o exame, em outubro, 89,2% obtiveram desempenho considerado adequado, segundo critérios estabelecidos pelos ministérios da Educação e da Saúde. Faltou 0,2 ponto percentual para que a escola de Santo André atingisse o patamar que lhe garantiria o conceito máximo.
“Passou raspando. Somos a maior nota quatro do Brasil, entre as oito melhores instituições privadas do País”, declarou o reitor, revelando que o corpo acadêmico já trabalha na avaliação dos dados e adequação dos currículos para melhorar o desempenho nas próximas edições do Enamed. “Vamos buscar a nota cinco”, completou.
Fonseca atribui parte do bom desempenho dos alunos, todos eles concluintes do curso, à qualidade do corpo docente. “Podemos ter muitos defeitos, mas temos uma qualidade: a liberdade (que concedemos) para que o professor possa trabalhar. Isso faz com que ele se sinta protagonista do processo de ensino”, apontou o reitor.
Segundo Fonseca, na FMABC, os docentes podem determinar a maneira como os conteúdos obrigatórios serão passados aos alunos, estabelecendo as suas próprias grades. “Não é de maneira engessada. É uma instituição extremamente democrática.”
A FMABC instituiu um núcleo de capacitação e desenvolvimento docente que mantém processo de capacitação contínua de professores, de modo que os avanços da área sejam rapidamente incorporados no currículo acadêmico. Foi assim que, de forma pioneira, a instituição criou o departamento de inteligência artificial e computação educacional, responsável por incluir novas tecnologias ao ensino.
“Isso está entrando agora, em 2027, na diretriz da Medicina, mas nós já temos”, ilustrou a pró-reitora de Graduação, Roseli Oselka Saccardo Sarni. Ela também contou que professores têm acesso a programa de pós-graduação, por meio do qual podem concorrer a bolsas de estudo de doutorado e mestrado no próprio Centro Universitário.
De nada adiantaria ter estrutura e professores capacitados se não houvesse estudantes interessados em aprender, lembrou a pró-reitora. “Nossa comunidade acadêmica é muito atuante”, reconheceu Roseli, citando que os alunos do Centro Universitário participam da iniciação científica desde o primeiro ano. “Eles têm participação em todos os projetos de extensão”, completou.
Estágio
O corpo diretivo do Centro Universitário também destaca a importância das atividades práticas para a obtenção do bom desempenho no Enamed. “Precisamos de técnicas modernas, e temos laboratórios de simulação, mas não podemos abandonar o ensino à beira do leito”, afirmou o vice-reitor David Feder. “Temos uma preocupação muito forte com os campos de estágio.”
De acordo com Feder, a aprendizagem realizada nos hospitais é fundamental para a formação médica, desde que acompanhada por professores. “Brigamos por campos de estágio, mas levamos preceptores. Não é só levar o aluno, como algumas faculdades fazem. Levamos os nossos preceptores e confiamos na equipe. Temos pessoas que cuidam do doente do mesmo jeito que gostaríamos que cuidassem dos nossos parentes”, comparou o vice-reitor do Centro Universitário.
Concorrência
O Grande ABC possui outros três cursos de Medicina. O da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) também ficou com nota 4 no Enamed. Participaram do exame 96 alunos da instituição, que obteve 75,6% de proficiência. Os da Uninove tiveram conceito 3 na unidade de Mauá (67 estudantes avaliados, com índice de 70,5%) e 2 na de São Bernardo (96 participantes e 55,2%) – neste último caso, a faculdade não pode abrir mais vagas.
‘Seria 5 se FUABC não tivesse atrapalhado’
O ex-reitor David Uip, que ficou até o início deste ano no comando, disse que o Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC) só não obteve nota máxima no Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) porque a Fundação do ABC, que é mantenedora da escola, atrapalhou. A escala de avaliação vai de 1 a 5. Segundo o médico infectologista, a antiga direção da FUABC, substituída nesta quarta-feira (28), trabalhou para reduzir os campos de estágio da própria instituição mantida.
“Estou muito orgulhoso pela nota quatro, mas muito infeliz pelo não-cinco e imputo essa responsabilidade à perda de tempo acadêmico que tivemos numa disputa insana, sem nexo”, avaliou Uip em entrevista ao Diário. Durante seus oito anos na reitoria do Centro Universitário, ele chegou a acionar a Justiça para impedir que a FUABC, por exemplo, retirasse as vagas de estágio da faculdade no Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André. “Fomos muito atrapalhados pela Fundação do ABC”, sintetizou.
“Critico e acuso a Fundação do ABC porque passamos dois anos brigando mortalmente pelos nossos estágios, inclusive uma briga jurídica para manter o Mário Covas. Isso é absolutamente inaceitável. Somos mantidos pela Fundação, e como mantidos, somos de propriedade dos três municípios”, detalhou Uip, citando Santo André, São Bernardo e São Caetano, o trio de cidades que, em 1967, criou a FUABC com a missão exatamente de viabilizar uma faculdade de medicina para o Grande ABC – o que ocorreu em 5 de fevereiro de 1969.
Uip sugeriu que o antigo comando da instituição, presidida por Luiz Mário Pereira de Souza Gomes, que se manteve como secretário-geral na atual gestão, sabotou a FMABC. “Deveria ter havido um investimento maciço, brutal, não só em dinheiro, mas na busca de estágios. Fomos confrontados com o poder. Fomos em busca de estágio até por via legal. Íamos perder o Mário Covas, especialmente a clínica médica, depois as UTIs (Unidades de Terapia Intensiva), algo que é inacreditável e inaceitável”, ilustrou o ex-reitor.
Monetização
Atual reitor do Centro Universitário FMABC, Fernando Luiz Affonso Fonseca denunciou o que chamou de “monetização” das vagas de estágio disponíveis nas unidades médicas administradas pela FUABC. A fundação receberia dinheiro para permitir que escolas de medicina utilizassem seus hospitais como escola.
“Uma coisa que o professor David está lembrando, que é essa monetização do campo de prática, precisa ser rediscutida ao nível nacional. Venho aqui, ofereço um valor para usar o teu campo de prática. Pago para o meu estagiário estar lá, para o meu aluno estar lá. Nós não fazemos isso. Somos instituídos pelos municípios, então temos de prestar contrapartida educacional: qualificar o médico, dar curso de especialização, formar mais mestres e doutores para atuarem nas secretarias municipais e assim por diante”, declarou Fonseca.
Segundo o Centro Universitário, uma dessas situações ocorreu no Hospital de Clínicas José Alencar, em São Bernardo, gerenciado pela FUABC. O Diário apurou que a FMABC perdeu as dez vagas de estágio em cirurgia geral que tinha na unidade para a Uninove, instituição particular mantida pela Associação Educacional Nove de Julho, com sede em São Paulo.
Vice-reitor do Centro Universitário, David Feder afirmou que a monetização prejudica a qualidade do serviço nas unidades públicas de saúde. “Somos uma das faculdades que mais está tendo problemas com campo de estágio, mas é porque queremos qualidade. Não queremos colocar dez alunos em volta de uma pessoa fragilizada, doente. Queremos ter muitos espaços, muitos preceptores para que a saúde seja bem feita e que o aprendizado seja de qualidade.”
Presidência da mantenedora promete ‘construir soluções’
Sob o comando do médico Aldemir Humberto Soares desde a quarta-feira (28), a FUABC (Fundação do ABC) disse ontem que conhece as dificuldades enfrentadas pelo Centro Universitário FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), sua mantida, na obtenção de locais para a realização de estágios e prometeu dialogar com a Reitoria da escola para a “construção de soluções”.
“A nova presidência da instituição tomou posse há menos de uma semana e está ciente das dificuldades em anos anteriores mencionadas pelo Centro Universitário FMABC em relação aos campos de estágio”, explicou a FUABC por meio de nota encaminhada ao Diário.
Segundo o documento, Soares já se encontrou com o reitor Fernando Luiz Affonso Fonseca e com o vice, David Feder, para falar sobre o assunto, que tomaram posse em 12 de fevereiro.
“Nesta semana, a nova presidência realizou a primeira reunião institucional com o reitor e o vice-reitor recém-empossados do Centro Universitário FMABC, ocasião em que o tema dos campos de estágio foi apresentado como uma das demandas prioritárias a serem aprofundadas conjuntamente”, detalhou nota da FUABC.
“A nova gestão reafirma o compromisso de dialogar e avançar na construção de soluções que fortaleçam as atividades acadêmicas e assistenciais, apoiando o Centro Universitário FMABC na busca contínua por melhorias nas práticas de campo voltadas aos diversos cursos das Ciências da Saúde, sempre em consonância com as necessidades do ensino e da rede pública de saúde”, continuou a nota.
A Fundação do ABC disse ainda, no documento, que “permanece à disposição para manter o diálogo institucional e aprimorar continuamente a integração entre ensino e assistência em saúde, em benefício da formação profissional e da população atendida”.
Fonseca confirmou que se encontrou com Soares e disse estar otimista com a mudança no comando da FUABC, que até terça-feira (27) era presidida por Luiz Mário Pereira de Souza Gomes. “Todo mundo é bem técnico. O doutor Aldemir foi coordenador de residência, muitos anos, no Hospital Heliópolis. Gosta do meio acadêmico. Ele deixou isso muito claro. Toda essa situação é pregressa e, como todos nós, está imbuído de falarmos todos a mesma língua”, declarou o reitor.
O ex-reitor David Uip, um dos maiores críticos da antiga gestão da FUABC, endossou as palavras do sucessor. “Hoje, muito otimistamente, concordo plenamente com a aproximação e o encaminhamento a quatro mãos de duas instituições que jamais deveriam ser separadas. Até por uma questão de formulação. Estamos falando de três municípios que têm uma Fundação que é mantenedora do Centro Universitário. Como esse Centro Universitário vai disputar espaço com faculdades e universidades que vieram para cá e nem vão ficar?”, questionou Uip.
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