Setecidades Titulo Precaução

Billings 101 anos: USCS mapeia 16 pontos de descarte irregular de esgoto na represa

Especialistas alertam para degradação do reservatório; falta de saneamento é o principal problema

27/03/2026 | 08:00
Compartilhar notícia
Divulgação
Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Um relatório técnico da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), a pedido da Prefeitura de Rio Grande da Serra, mapeou 16 pontos de descarte irregular de esgoto em corpos de água que abastecem o Rio Grande, braço da Represa Billings. Nesta sexta-feira (27), o reservatório completa 101 anos de história, porém especialistas indicam que o processo de degradação ainda é constante nos mananciais.

Segundo a bióloga, professora da USCS e uma das idealizadoras do estudo, Marta Marcondes, o relatório, realizado em novembro de 2025, surgiu a partir de uma parceria com a administração municipal. A pesquisa apontou que o IQA (Índice de Qualidade de Água) dos pontos mapeados foi considerado péssimo. “A Prefeitura mapeou mais de 30 áreas onde o esgoto é lançado diretamente nos córregos da cidade. O que percebemos é que 16 estão em uma situação bastante complicada. O resultado foi a presença de muitos microrganismos que são causadores de doenças”, comentou a especialista.

O prefeito de Rio Grande da Serra, Akira Auriani (PSB), falou que, após o relatório, o caminho é conversar com os órgãos competentes. “O resultado ficou muito claro, significa que estamos vivendo uma contaminação muito séria. A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) tem sido parceira no diálogo e comprometeu diminuir o acesso universal de tratamento de 2030 para 2028, com investimento de R$400 milhões na cidade”, disse.

Mesmo após décadas, a bióloga observa que a poluição na represa permanece como um dos principais problemas. “Inicialmente, o reservatório foi criado para geração de energia e abastecimento de água. Com o passar do tempo, tivemos mudanças de características da região e começamos a ver o despejo de efluentes, porque não havia nenhuma lei ambiental. Agora, 100 anos depois, vemos o resultado: áreas contaminadas com esse despejo e também a entrada do Rio Pinheiros”, falou a bióloga.

Em nota, a Semil (Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado) confirmou os pontos irregulares em Rio Grande da Serra e disse que, por meio da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), realiza fiscalização. “Esses locais já integram o escopo das ações de fiscalização e monitoramento realizadas na Bacia Billings. Um dos pilares centrais para a solução definitiva do problema é a universalização do saneamento até 2029, em linha com o contrato de concessão vigente com a Sabesp”, informou.

O advogado ambientalista Virgílio Alcides de Farias comentou que a lei específica da Billings não tolera esse tipo de descarte irregular de esgoto. “A norma tem como objetivo assegurar e potencializar a função da bacia hidrográfica, garantindo sua qualidade e quantidade”, pontuou.

Farias ainda explicou que as águas da represa estão classificadas nas classes 1 e 2, o que proíbe o despejo de esgoto, mesmo tratado, no reservatório. 

Questionada, a Sabesp informou que opera sistemas de esgotamento sanitário que atende extensas áreas do entorno da Bacia Billings e direciona os efluentes coletados às Estações de Tratamento de Esgotos ABC, Barueri e Suzano. 

Em um dos pontos citados pelo relatório, na Rua Venâncio Orsini, a companhia verificou que alguns imóveis ainda não estão efetivamente conectados à rede pública. “A impossibilidade de ligação ocorre porque os imóveis possuem soleira negativa. Nesses casos, a conexão à rede exige a instalação de um sistema de bombeamento, mediante acordo entre morador e Sabesp, ficando a implantação, operação e manutenção sob responsabilidade do proprietário.”

Para Farias, o aniversário da Billings não sugere comemoração. “Se continuar o atual desprezo pelas águas da Billings, em 100 anos não haverá mananciais. O reservatório estará totalmente degradado”, concluiu.

OUTROS PONTOS

Em um dos braços da Billings, próximo ao bairro Jardim Miami/Riviera, em Santo André, a água apresenta grande concentração de algas e resíduos sólidos. Segundo a bióloga Marta Marcondes, esses microrganismos crescem quando há muita poluição. “As algas na verdade são macrófitas, que são plantas de água específica que só crescem quando temos muita poluição”, comentou a especialista.

Moradores também denunciaram o descarte irregular em um corpo de água que deságua na Represa Billings. Para Vanessa Santos, 35 anos, moradora da região e dona de casa, o odor se tornava insuportável quando o nível da represa estava baixo. “Moro aqui há 35 anos, e o esgoto sempre foi lançado dessa forma. No calor, o cheiro piora, e quando a represa seca, também incomoda muito. Por isso, não consumimos peixes daqui, nem tomamos banho na margem ou lavamos roupas na água”, contou.

A Prefeitura de Santo André, por meio do Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental), afirmou que a autarquia já acionou a Sabesp para regularizar a situação. “Além disso, uma rede de esgoto de fundo de lote, que atende os imóveis da Rua Rio Jaguaribe, está danificada A companhia estadual informou que está providenciando a manutenção necessária.”

Transposição pode afetar preservação 

Além da questão da poluição, a bióloga e professora da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Marta Marcondes, afirmou que a obra de transposição de águas nos braços do Rio Pequeno, em São Bernardo, para a represa Taiaçupeba, em Suzano, pode afetar diretamente a preservação do manancial. 

Com R$ 1,4 bilhão de investimento, o planejamento prepara uma tubulação de aço enterrada com aproximadamente 38,1 quilômetros de extensão. A captação prevista é de 4.000 litros por segundo. 

“Primeira questão, o braço do Rio Pequeno tem condição de mandar essa quantidade? Se você retirar uma grande quantidade, você abaixa significativamente o volume do braço que tem contato direto com a Billings. E outra coisa, é que no momento da construção, a qualidade da água pode ser afetada. Onde está o estudo comprovando? Estamos pedindo”, questionou.

De acordo com a Semil (Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado), um estudo da FCTH (Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica), da USP (Universidade de São Paulo), atesta a viabilidade e a segurança hídrica da nova captação de água no Rio Pequeno, braço da Represa Billings.<EM>

LEIA TAMBÉM:

"Projeto da Sabesp envolvendo Billings ameaça abastecimento da região"




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;