Mais gestão, menos polarização
Fernandes

Os indicadores econômicos recentes do Brasil, à primeira vista, sugerem um cenário que, em outros momentos da história, seria suficiente para impulsionar a popularidade de qualquer governo. Aumento da renda disponível com medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, níveis de emprego próximos ao pleno emprego e algum dinamismo no consumo formariam, no passado, a base de sustentação de aprovação política consistente.
No entanto, não é isso que estamos vendo hoje com o atual presidente. Mesmo diante desses indicadores, a popularidade não reage. E isso revela algo mais profundo: não se trata apenas de comunicação, narrativa ou conjuntura. Trata-se do esgotamento de um modelo econômico.
Durante anos, o Brasil apostou em um ciclo baseado no estímulo ao consumo como principal motor de crescimento. Esse modelo, em determinado contexto, especialmente com cenário internacional favorável e expansão de crédito, gerou resultados importantes. Mas, hoje, ele mostra sinais claros de fadiga.
O crescimento recente não tem sido acompanhado de uma melhora efetiva na qualidade de vida da população. E há uma razão evidente para isso: o aumento da renda veio acompanhado de um aumento ainda maior do endividamento das famílias. O crédito, que antes impulsionava o consumo, hoje sufoca o orçamento doméstico.
As taxas de juros praticadas no Brasil, especialmente no cartão de crédito e no cheque especial, são um retrato dessa distorção. Em muitos casos, ultrapassam 400% ao ano: patamares completamente descolados da realidade inflacionária e que penalizam, sobretudo, a população de menor renda. Trata-se de um sistema que aprisiona o cidadão, corroendo qualquer ganho real obtido com políticas de transferência de renda ou alívio tributário.
Ao mesmo tempo, o País permanece preso a uma armadilha macroeconômica. Um Estado que gasta muito pressiona a dívida pública, que por sua vez exige juros elevados para financiamento. Juros altos desestimulam o investimento produtivo e encarecem o crédito, criando um ciclo vicioso que limita o crescimento sustentável.
O resultado é um crescimento artificial, sustentado no consumo de curto prazo, mas sem base sólida em produtividade, investimento e aumento real da capacidade econômica do País. E a população percebe isso no dia a dia. Não é apenas sobre números, é sobre sensação de qualidade vida. E essa sensação não melhorou.
É justamente por isso que medidas que antes geravam popularidade hoje já não produzem o mesmo efeito. O cidadão sente que trabalha, consome, mas não avança. Que a renda entra e sai rapidamente. Que o custo de vida segue alto. Que o crédito, ao invés de ser solução, virou problema.
Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de uma mudança de direção. O Brasil precisa retomar uma agenda baseada em responsabilidade fiscal, eficiência do gasto público e modernização do Estado. Não se trata de retirar direitos, mas de garantir que o Estado seja sustentável e capaz de gerar prosperidade no longo prazo.
Reduzir o tamanho da máquina pública, melhorar a qualidade do gasto, simplificar o sistema tributário e criar condições para a queda estrutural da taxa de juros são passos essenciais. Sem isso, continuaremos presos a ciclos curtos de crescimento seguidos de frustração.
A queda de popularidade do governo, nesse contexto, não é um fenômeno isolado. É um sintoma. Um sinal claro de que a sociedade já percebeu que o modelo atual não entrega mais o que prometia, e que a polarização política radicalizada tem se mostrado improdutiva para o Brasil.
E, talvez, a principal lição seja essa: sem responsabilidade fiscal, sem reformas estruturais, sem projeto de Brasil e sem compromisso com eficiência, não há política pública que se sustente no tempo; nem popularidade que resista à realidade.
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