Economia Pesquisa indica que 46% dos brasileiros acreditam que é possível melhorar de vida por conta própria, mesmo enfrentando dificuldade de obter crédito
Barbeiro Bruno Barbosa diz que consegue se manter, mas não investir para ampliar o negócio (FOTO: André Henriques)

A classe C, também chamada de classe média baixa, representa 46% dos empreendedores ou donos de negócios no Brasil, segundo estudo elaborado pelo Instituto Locomotiva, em parceria com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Responsáveis por cerca de 30% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, os microempreendedores ainda enfrentam dificuldades para crescer. Entre os principais atrativos da área, flexibilidade de horários e ganhos maiores são os destaques. Por outro lado, dificuldade de acesso ao crédito limita investimentos, expansão e até a manutenção dos negócios em períodos de instabilidade.
“O sonho de ser dono do próprio negócio motiva milhões de homens e mulheres que lutam para manterem a si e suas famílias. E não apenas isso, mas geram emprego e renda e criam inclusão social, mobilizando comunidades inteiras em todo o País”, diz o presidente do Sebrae, Décio Lima.
Segundo a analista de negócios do Sebrae-SP e gestora territorial, Juliana Ramos Camargo, o crédito é uma das maiores demandas, mas também uma das principais barreiras. “As instituições financeiras exigem CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), histórico de movimentação e garantias. Muitos não conseguem comprovar essas exigências.”
Ela destaca que o problema começa antes mesmo da busca por financiamento. “Muitos empreendem sem planejamento, sem entender custos, mercado ou precificação. Se o empreendedor não estiver preparado, isso vira um problema. Ele assume uma parcela que não consegue pagar”, alerta a especialista.
Na prática, as restrições financeiras mantêm muitos empreendimentos em estágio de sobrevivência. É o que relata o barbeiro Bruno Barbosa, 40 anos, proprietário da Brunno Barbershop, em São Bernardo, que atua há mais de duas décadas no setor. “Fica difícil investir, abrir outra unidade ou melhorar a estrutura. Eu consigo me manter, mas crescer exige dinheiro, o que não é fácil de conseguir”, lamenta.
O aumento de custos também pressiona os pequenos empreendedores. A designer de unhas Maria Eduarda Souza Maia Carneiro, 21 anos, do estúdio Duda Nails, em Ribeirão Pires, viu os custos dispararem nos últimos anos. “Antes eu gastava R$ 300 por mês com material. Hoje vai de R$ 600 a R$ 1.200”, diz.
Mesmo com essas dificuldades o microempreendedorismo continua sendo uma forma para jovens irem em busca da independência financeira ou para ajudar na renda familiar. Antes mesmo de ingressar no mercado formal de trabalho, eles já encontram nos pequenos negócios uma forma de construir carreira, adquirir experiência e garantir sustento, ainda que sem planejamento estruturado ou acesso facilitado a crédito.
Barbosa começou aos 16 anos o primeiro curso na área de beleza e, um ano depois, abriu o próprio salão enquanto ainda cursava o ensino médio. Incentivado pelo pai, encontrou na barbearia não só uma profissão, mas um caminho de estabilidade. “Entrei ‘forçado’ na área, mas acabei gostando e segui nisso”, diz.
Já Maria Eduarda iniciou a trajetória no ramo de beleza aos 15 anos, em busca de renda. “Eu ganhava R$ 600 por mês quando trabalhava no salão e decidi procurar alternativas para aumentar meu salário”, relembra.
Após investir em cursos e ganhar experiência, trabalhou por cerca de dois anos em salões antes de abrir o próprio negócio ao lado da mãe. “Hoje tenho meu estúdio e uma clientela fiel, que só cresce”, afirma.
De acordo com o presidente do Sebrae, Décio Lima, o crescimento do setor depende principalmente de “fomento e o ambiente legal necessário para ampliar a produtividade e competitividade dessas empresas com políticas públicas que garantam acesso a crédito, inovação e capacitação”.
Controle financeiro e capacitação impulsionam negócios
A falta de planejamento é um dos principais fatores que levam microempreendedores a enfrentar dificuldades financeiras, especialmente na hora de recorrer ao crédito. De acordo com a analista de negócios do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Juliana Ramos Camargo, antes de buscar qualquer linha de financiamento, é essencial entender se o recurso será, de fato, um impulsionador do negócio ou um risco adicional.
Entre as orientações da especialista, o primeiro passo é organizar o negócio antes de assumir qualquer dívida. Isso passa por definir objetivos, prever custos e conhecer o mercado em que atua. Outro ponto central é o controle financeiro: misturar contas pessoais com as da empresa compromete a gestão e dificulta identificar se há lucro ou prejuízo no negócio.
A analista destaca ainda que o empreendedor precisa ter clareza sobre sua capacidade de pagamento, avaliando se o faturamento será suficiente para arcar com as parcelas do crédito. A formação do preço também exige atenção, já que muitos negócios acabam no prejuízo por não incluir no cálculo despesas fixas, taxas e juros.
Por fim, Juliana reforça a importância da capacitação. Segundo ela, cursos e orientações ajudam a evitar erros básicos de gestão e contribuem para decisões mais seguras. O crédito, nesse contexto, deve ser utilizado prioritariamente para investimento e expansão, e não para cobrir dívidas acumuladas, prática que pode agravar ainda mais a situação financeira do negócio.
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