Mais gestão, menos polarização
ARTE: Gilmar

O calendário político brasileiro avançou mais uma casa. Com o fim da janela partidária e o encerramento do prazo de filiações, o tabuleiro eleitoral começa a ganhar contornos mais nítidos.
É nesse momento que, passada a fase das especulações, as peças se acomodam e revelam, com mais clareza, não apenas quem pretende disputar, mas principalmente quais caminhos estarão de fato disponíveis para o eleitor brasileiro.
E o que se desenha, lamentavelmente, não é animador.
Há anos venho defendendo neste espaço a necessidade de o Brasil construir alternativas baseadas em gestão, equilíbrio e responsabilidade – caminhos que fujam da lógica binária que tem dominado o debate público. No entanto, o cenário que emerge após esse ciclo de definições partidárias indica que, ao menos por ora, essa alternativa ainda não conseguiu se consolidar nacionalmente.
A chamada ‘terceira via’, que em diferentes momentos surgiu como uma esperança de renovação e moderação, segue mais como conceito do que como realidade política concreta. Faltam nomes com densidade eleitoral, faltam projetos consistentes que dialoguem com a população e, sobretudo, falta unidade. Em um ambiente político que premia extremos e simplificações, construir uma candidatura de centro exige mais do que boas intenções – exige coordenação, coragem e capacidade de convergência. Elementos que, até aqui, não se materializaram.
O resultado disso é um déjà vu preocupante: mais uma eleição marcada pela polarização intensa, pela radicalização do discurso e pela redução do debate público a uma disputa de narrativas antagônicas. Em vez de discutirmos o futuro do Brasil – reformas estruturais, produtividade, educação, inovação, eficiência do Estado – corremos o risco de reviver uma campanha centrada no medo, na rejeição e na negação do outro.
E os efeitos desse modelo já são conhecidos.
A polarização, quando levada ao extremo, deixa de ser um instrumento saudável da democracia – que deveria apresentar caminhos distintos – e passa a ser um fator de paralisia. O País perde a capacidade de construir consensos mínimos. Reformas importantes ficam pelo caminho. Decisões estruturantes são adiadas indefinidamente. A política deixa de ser solução e passa a ser parte do problema.
Além disso, a radicalização contamina o ambiente institucional. O diálogo entre os Poderes se deteriora, a confiança nas instituições é corroída e o debate público se empobrece. Em vez de argumentos, prevalecem rótulos. Em vez de propostas, ataques. E quem mais perde com isso é a população, que continua enfrentando problemas reais enquanto a política se ocupa de disputas estéreis.
Do ponto de vista econômico, os impactos também são evidentes. A incerteza política afasta investimentos, reduz a previsibilidade e dificulta o planejamento de longo prazo. Países que crescem de forma consistente são aqueles que conseguem estabelecer agendas estáveis, com metas claras e compromisso com a responsabilidade fiscal. A polarização crônica, ao contrário, cria ciclos de avanços e retrocessos, comprometendo o desenvolvimento sustentável.
São Paulo, pela sua relevância econômica e política, poderia – e deveria – liderar um movimento de reconexão com a boa política, aquela que valoriza resultados, planejamento e eficiência. Ao longo da sua história, o Estado já foi protagonista de agendas reformistas importantes, capazes de influenciar positivamente o restante do País. Mas, assim como no cenário nacional, ainda não se vislumbra, com força suficiente, uma alternativa que rompa com a lógica da polarização.
Isso não significa que ela seja impossível. Significa apenas que ainda não foi construída.
E aqui reside um ponto central: a responsabilidade não é apenas dos partidos ou das lideranças políticas. É também da sociedade, que precisa voltar a valorizar o debate qualificado, a busca por soluções concretas e a rejeição a discursos fáceis que pouco contribuem para a resolução dos problemas reais.
O Brasil já demonstrou, em outros momentos da sua história, que é capaz de escolher o melhor. Foi assim quando enfrentou desafios estruturais com responsabilidade e visão de futuro. E pode ser assim novamente.
Mas, para isso, será preciso mais do que torcer por uma alternativa. Será preciso construí-la – com coragem, com diálogo e, sobretudo, com compromisso com o País.
Porque, no fim das contas, a escolha nunca é apenas entre nomes ou partidos. É entre seguir presos a um ciclo de confronto improdutivo ou abrir espaço para um projeto de nação que una, em vez de dividir.
O cenário está posto. Resta saber se teremos, mais uma vez, uma eleição sobre o passado – ou, finalmente, uma eleição sobre o futuro.
Paulo Serra é especialista em gestão pública, professor universitário, presidente estadual do PSDB e foi prefeito de Santo André de 2017 a 2024.
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