Mais gestão, menos polarização Titulo Coluna

Esgotamento de um modelo e a urgência de novo pacto

Paulo Serra
03/05/2026 | 11:17
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Seri/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


 A não aprovação do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal vai muito além de um episódio político pontual. Ela simboliza, de forma clara, o esgotamento de um modelo que há décadas organiza, ou tenta organizar, a relação entre os Poderes no Brasil: o chamado presidencialismo de coalizão.

Esse modelo, construído a partir da necessidade de formar maiorias no Congresso em um sistema multipartidário fragmentado, sempre se sustentou em bases pragmáticas. Distribuição de cargos, negociação de espaços e acordos políticos foram, por muito tempo, os instrumentos utilizados para garantir governabilidade. Funcionou? Em alguns momentos, sim. Mas o custo sempre foi alto e, ao que tudo indica, agora chegou ao limite.

O episódio recente revela que a lógica tradicional já não responde com a mesma eficácia. A construção de maiorias deixou de ser previsível. O alinhamento entre Executivo e Legislativo tornou-se mais volátil, menos institucional e mais sujeito a pressões circunstanciais. O que antes era resolvido nos bastidores hoje se transforma em impasses públicos, com impacto direto na estabilidade política e na capacidade de decisão do país.

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Mais do que uma crise episódica, estamos diante de uma mudança estrutural.

O Brasil de hoje não é mais o mesmo de décadas atrás. A sociedade é mais informada, mais conectada e mais exigente. A política, por outro lado, ainda opera com mecanismos antigos, muitas vezes desconectados da realidade. Esse descompasso gera ruídos, paralisa decisões e compromete o planejamento de longo prazo, algo essencial para qualquer nação que queira crescer de forma sustentável.

O problema não está apenas na dificuldade de aprovação de nomes ou projetos. Está na ausência de um modelo mais transparente, mais eficiente e mais orientado a resultados. Um modelo que privilegie a construção de consensos em torno de projetos de país, e não apenas de interesses imediatos.

Isso nos leva a uma reflexão mais ampla: o Brasil precisa revisitar seus paradigmas institucionais.

O pacto federativo, por exemplo, segue concentrando recursos e poder na União, enquanto estados e municípios, que estão mais próximos da vida real das pessoas, enfrentam limitações para executar políticas públicas com eficiência. Ao mesmo tempo, a relação entre os Poderes carece de maior equilíbrio e previsibilidade. Não se trata de enfraquecer instituições, mas de aprimorar mecanismos de cooperação, responsabilidade e transparência.

Além disso, é urgente qualificar o debate político. A construção de maiorias não pode continuar baseada apenas em negociações pontuais. É preciso avançar para uma lógica de planejamento estratégico, com metas claras, prioridades definidas e compromisso com resultados concretos.

O Brasil precisa discutir o país que quer ser nos próximos 10, 20, 30 anos.

Infraestrutura, educação, inovação, sustentabilidade, segurança pública, todos esses temas exigem continuidade, estabilidade e coordenação entre os Poderes. Sem isso, seguimos presos a ciclos curtos, decisões fragmentadas e políticas públicas que muitas vezes começam, mas não terminam.

O episódio envolvendo o STF escancara essa realidade. Não é apenas sobre um nome ou sobre esquerda e direita. É sobre um sistema que perdeu capacidade de organizar o funcionamento do Estado de forma eficiente.

E quando o sistema não funciona, quem paga a conta é sempre a população.

Por isso, mais do que buscar culpados, é hora de buscar soluções. O Brasil precisa de mais gestão e menos polarização. Precisa de diálogo qualificado, responsabilidade institucional e coragem para enfrentar reformas que há muito tempo são adiadas.

O esgotamento do presidencialismo de coalizão não é o fim da governabilidade. Pode, e deve, ser o começo de um novo ciclo.

Um ciclo em que o foco esteja menos na política como disputa e mais na política como instrumento de transformação. Porque, no fim das contas, é isso que realmente importa.




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