Saúde de Família & Comunidade
ARTE: Gilmar

Passado o Dia das Mães, as campanhas do comércio desaparecem, mas o trabalho de milhões de mulheres no Brasil no cuidado com os filhos continua 24 horas por dia, frequentemente invisível para a sociedade. Muito mais do que uma data comercial, o Dia das Mães deve servir como um marco contínuo de reconhecimento, valorização e proteção às mulheres que abraçam a maternidade e a criação dos filhos, que em poucos anos irão compor a futura geração economicamente ativa, responsável por movimentar o País em diferentes frentes.
Silenciosamente, essas mulheres cuidam, tratam, acalmam, educam, curam e atendem a inúmeras outras demandas, na maioria das vezes sozinhas e sem uma rede de apoio estruturada. A sobrecarga é expressiva e recai sobre a saúde física, emocional e financeira, impactando diretamente não apenas essas mulheres, mas toda a dinâmica familiar.
Esse trabalho considerado invisível ocupa uma parcela significativa do tempo. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2022 mostram que mulheres com 14 anos ou mais dedicam, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Quando se observa a rotina concreta, percebe-se que, ao ver uma criança já banhada, alimentada e pronta para suas atividades, houve um longo percurso até aquele momento. Envolve o preparo da comida, a lavagem de roupas, o banho na criança ou sua supervisão, a organização da casa, a ida ao supermercado e uma série de outras tarefas que não se encerram, apenas se reorganizam diariamente.
Mesmo diante dessa realidade, a sobrecarga emocional das mães, embora perceptível, é frequentemente naturalizada. Um levantamento conduzido pela pesquisadora Giliane Belarmino, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com mais de 870 mães, evidenciou que 66% classificam a própria saúde mental como péssima, ruim ou regular, enquanto apenas 34% a consideram boa ou ótima. Em relação à sobrecarga, 97% das participantes relataram sentir esse peso entre cinco e todos os dias do mês, e 94% apontaram o esgotamento como uma condição recorrente em suas rotinas.
Nesse contexto, a pergunta “quem cuida de quem cuida?” torna-se não apenas pertinente, mas urgente. Isso se aplica não apenas às mães, mas também a outras mulheres que exercem funções de cuidado, como avós, tias e madrinhas. O olhar direcionado a essas cuidadoras precisa ser específico e atento, já que é comum a negligência do autocuidado em função das demandas do outro. E esse autocuidado não deve ser entendido apenas como momentos pontuais de descanso, lazer ou uma boa noite de sono, mas como a possibilidade real de se sentirem cuidadas, apoiadas e reconhecidas em sua complexidade. Um exemplo concreto reforça essa necessidade. A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos indica que, para que uma criança esteja bem, é fundamental que seu cuidador primário também esteja bem.
Reconhecer o trabalho invisível das mães é fundamental para que ele deixe de ser naturalizado como obrigação exclusiva e passe a ser entendido como uma responsabilidade compartilhada. Valorizar esse cuidado, dar visibilidade a ele e construir redes de apoio são passos essenciais para reduzir desigualdades, preservar a saúde das mulheres e fortalecer as bases de uma sociedade mais justa e sustentável.
Fabiano Gonçalves Guimarães é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade
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