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Ex-‘Diário’, Pedro Martinelli lança livro de memórias sobre fotografias

Em ‘Olho no Mundo’, fotógrafo histórico relembra bastidores de coberturas e traz relatos inéditos

13/05/2026 | 07:27
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FOTO: Celso Luiz/DGABC
FOTO: Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


“Nasci para publicar fotografia.” A frase de Pedro Martinelli ajuda a resumir o espírito de Olho no Mundo (Terra Virgem Edições, 168 páginas, R$ 120), seu livro de memórias que será lançado hoje, no Restaurante Martín Fierro, na Rua Aspicuelta, 683, na Vila Madalena, na Capital, das 17h às 20h. Depois de mais de cinco décadas de experiência no fotojornalismo, incluindo uma passagem no Diário no início da carreira, entre os anos de 1968 a 1970, o fotógrafo reúne histórias de bastidores, relatos de grandes coberturas e reflexões sobre a profissão em uma obra que revisita desde os primeiros dias em Santo André até as viagens que moldaram seu olhar sobre o Brasil.

“Só tem sentido a fotografia publicada em um pedaço de papel. Pode ser no jornal, na revista, em um saco de pão da padaria ou em santinho da igreja”, afirma Martinelli, em entrevista ao Diário. Escrito por Carlos Maranhão e publicado pela Terra Virgem Editora, o livro reúne 189 fotografias em 168 páginas e reconstrói uma trajetória que atravessa algumas das principais imagens do fotojornalismo brasileiro. Martinelli fotografou o contato com os indígenas Panará, cobriu a Revolução Sandinista na Nicarágua (1979 – 1990), cinco Copas do Mundo, Olimpíadas e as mortes dos papas Paulo VI e João Paulo I, com diversos prêmios e exposições.

Segundo o editor do livro, Roberto Linsker, a ideia era mostrar não apenas as imagens, mas os lugares onde elas circulam. “A vida do Pedro foi fotografar para jornal, revista e livro”, afirma. “Então pensamos a reprodução como conceito. O importante era mostrar aquela fotografia publicada, vivendo no papel.” O resultado é um livro que mistura memória pessoal, história da imprensa e bastidores do fotojornalismo brasileiro. “Isso aqui é quase um livro didático”, resume Linsker. “Tem ética profissional, perseverança e uma forma de olhar o mundo que hoje está desaparecendo.”

DGABC

A produção relembra a trajetória de Pedro Martinelli desde a infância, passando pelas experiências esportivas da adolescência, até a primeira oportunidade profissional. “Fui pedir emprego na Gazeta Esportiva e me deram trabalho em publicidade, pegando anúncio em padaria”, relembra. “Mas fiquei apaixonado quando vi uma fotografia sendo revelada. Até então, só queria jogar basquete e nadar.” Na sucursal da Gazeta Esportiva, em Santo André, aprendeu o funcionamento de uma redação enquanto acompanhava o cotidiano esportivo da região. Na época, Santo André possuía equipes de futebol, boxe, ciclismo e vôlei, representadas pela Pirelli. 

Foi no Diário, onde fez “de tudo”, da gráfica ao laboratório fotográfico, que surgiu uma das capas mais emblemáticas da carreira de Martinelli, imagem presente no livro. Na final da Copa do Mundo de 1970, foi do fotógrafo a ideia de, sem recursos para adquirir fotos por meio de agências internacionais, registrar a vitória de 4 a 1 do Brasil sobre a Itália por meio de uma televisão, em preto e branco. 

VIAGEM

Após a experiência no Grande ABC, Martinelli chegou ao O Globo. “Faltava fotógrafo, me tiravam da rádio-escuta e mandavam quebrar galho. Fazia qualquer coisa”, conta. Foi no jornal carioca que recebeu o convite que mudaria definitivamente sua vida. “Um dia me chamaram no Rio e disseram: ‘Você vai para a Amazônia acompanhar os irmãos Villas-Bôas’ (Orlando e Cláudio). Eu falei: ‘Lógico que eu quero ir’.”

A viagem, inicialmente prevista para durar um mês, se transformou em três anos na floresta (leia mais abaixo).

Depois, Martinelli consolidou a carreira em revistas como Veja e Placar, mas manteve o desejo de realizar projetos autorais com profundidade. “Saía das viagens com sensação de perda. Tinha sempre prazo, pouco dinheiro e precisava voltar para a próxima pauta. Queria ficar.” Foi dessa inquietação que nasceu sua forma de fotografar. “Se eu precisasse esperar um mês para fazer a foto, esperava. Sempre ouvi: ‘Você veio na época errada’. Então eu falava: ‘Tudo bem, eu espero’.”

O fotógrafo também relembra a transformação tecnológi-ca da profissão e admite nunca ter se adaptado ao digital. “Meu universo sempre foi câmera mecânica, filme e revelação”, diz. “O digital ajudou muito na velocidade, isso é genial. Mas banalizou um pouco.” Para ele, a fotografia continua dependendo do olhar. “Uma foto não deve repetir o óbvio do texto. Ela precisa trazer outro ponto de vista.” E o livro é certeiro, Pedro Martinelli nunca será óbvio.

Experiências na Amazônia rendem obras, exposições e prêmio Esso

A primeira vez que Pedro Martinelli entrou na Amazônia, no início dos anos 1970, ainda trabalhava para O Globo e acreditava que ficaria pouco tempo na região. “Era para ser um mês”, lembra. “Voltei três anos depois.” Foi durante essa expedição, no Mato Grosso, ao lado dos irmãos Villas-Bôas, que viveu episódios que nunca esqueceu, transformando as experiências em livros, exposições e prêmios. 

Em travessia pelos rios amazônicos, deixou cair na água uma série de filmes fotográficos, material essencial para o trabalho em uma época sem equipamentos digitais ou possibilidade de reposição. “Os indígenas entravam no rio e pegavam os filmes com o pé, no fundo da água”, conta. “Eles traziam na minha mão.”

A experiência resgatava seu histórico com o pai, também Pedro Martinelli, em caçadas pela Serra do Mar. “Como já gostava de mato, fui entendendo o que era a Amazônia. E decidi que minha vida seria direcionada para aquilo.” O contato inicial com os Panará, na década de 1970, originária anos depois Panará – A Volta dos Índios Gigantes (1998), livro que reúne imagens e relatos sobre o impacto da construção da BR-163 e o processo traumático de contato entre os indígenas e a expansão da fronteira amazônica. Foi pela reportagem A saga dos índios gigantes, com o jornalista Ascânio Seleme, que Pedro Martinelli ganhou o Prêmio Esso de Informação Científica, Tecnológica e Ecológica de 1996.

Justamente nos anos 1990 que Martinelli conseguiu realizar o projeto que considerava mais íntimo. Durante mais de dez anos, planejou a produção da Amazônia, o Povo das Águas (2000). “Queria fazer um documento sobre aquele povo que mora nos confins do País e que poucos brasileiros conhecem.” Sem depender de redações ou de revistas, comprou um barco para percorrer os rios da região no próprio ritmo. “Buscava independência total. Dormia no barco, parava na frente da casa dos caboclos e esperava.”

A lógica era simples: permanecer até conseguir a imagem desejada. “O cara ia arpoar pirarucu e eu tinha três horas para fotografar. Não dava”, diz. “Então resolvi fazer diferente. Se precisasse esperar um mês, esperava.” Foi assim que nasceram muitas das fotografias que compõem a Amazônia, o Povo das Águas, livro que documenta o cotidiano dos ribeirinhos amazônicos a partir de anos de convivência direta.

Depois vieram Mulheres da Amazônia (2003), dedicado às mulheres da floresta em comunidades do Acre, Amazonas e Pará, e Gente X Mato (2008), obra que reúne quase quatro décadas de documentação sobre a ocupação amazônica desde os anos 1970. “Era minha terapia. Eu fui juntando dinheiro, pensando nos lugares, estudando o que queria fotografar.”

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