Pandemia No Brasil, cerca de 716 mil pessoas morreram; família guarda a memória do símbolo Zelão, falecido aos 78 anos em São Bernardo
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Números como 12 mil e 716 mil poderiam representar diferentes estatísticas. No entanto, no contexto da pandemia, traduzem uma realidade marcada por perdas: correspondem às mortes causadas pela Covid-19 entre 2020 e 2025 no Grande ABC e no Brasil, respectivamente, segundo dados do painel do Ministério da Saúde.
O ano de 2021, o segundo da crise sanitária, foi o mais letal do período. No Grande ABC, cerca de 7.500 pessoas morreram em decorrência da Covid-19. Em todo o Brasil, o número de óbitos chegou a aproximadamente 424 mil.
A pandemia, declarada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) no dia 11 de março de 2020, ficou marcada por incertezas, dores, falhas e dificuldades sociais. Para relembrar e homenagear todas as vítimas do vírus, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), instituiu, no início deste mês, o Dia Nacional em Memória das vidas perdidas pela Covid-19 para 12 de março.
O dia escolhido remete ao falecimento da técnica de enfermagem Rosana Aparecida Urbano, a primeira vítima da doença registrada no Brasil, na Capital. Já na região, o primeiro caso foi contabilizado no dia 15 de março, enquanto a primeira morte foi no dia 25 do mesmo mês, de um morador de Santo André com 68 anos.
A data tem o objetivo de relembrar as mais de 700 vítimas, entre elas José Dantas Irmão, conhecido como Zelão, símbolo do Grande ABC e fundador da Cantina do Zelão, no Centro de São Bernardo. Aos 78 anos, o “Rei do Caldo Mocotó” morreu em decorrência do vírus em 31 de dezembro de 2020, semana em que o País registrou cerca de 4.100 mortes e as sete cidades contabilizaram 101.
Para manter a memória viva, suas filhas Rosemeire, 58, Luciana, 49 e Luisa Alves Dantas, 40, assumiram o empreendimento e continuam o legado do pai. A mais velha comentou que o pai começou a ter complicações no dia 9 de dezembro em casa e posteriormente procurou ajuda médica. Por já ter contraído o vírus em outubro, Rosemeire pode acompanhar todo o processo do familiar em um hospital particular no bairro Assunção.
“Os médicos constataram que o pulmão dele operava com apenas 50% da capacidade. Ele precisou ficar internado em isolamento, com auxílio de cilindro de oxigênio. Entre o sétimo e o décimo segundo dia após a contaminação, enfrentou o período mais crítico”, contou.
Rosemeire acompanhou as dificuldades do pai para realizar tarefas simples, como ir ao banheiro e escovar os dentes, devido à falta de ar. O quadro se agravou e Zelão precisou ser internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).
“Ele ficou uns oito dias entubado. No dia 31 de dezembro, a equipe de médicos reuniu todos os familiares para a despedida. Foi muito difícil perder meu pai, ainda mais porque ele se cuidava durante a pandemia, não frequentava nem mesmo o restaurante”, comentou Rosemeire.
O ADEUS
Assim como as inúmeras famílias que perderam entes queridos na crise sanitária, os familiares de Zelão não conseguiram velar o corpo do ente querido. “Uma dor minha, além de não poder ficar ao lado dele, não pudemos realizar o velório. Não sabia que tudo isso era tão importante, poder se despedir de quem amamos. A pandemia, além de impactar a sociedade, nos privou do convívio e da possibilidade de despedida, algo que eu não imaginava ser tão doloroso”, ressaltou, emocionada, Luciana.
Como principais legados de Zelão, as filhas falaram sobre a honestidade, carinho e respeito pelo próximo. A administradora do restaurante, Luisa Alves Dantas, comentou que a memória dele vai além do restaurante. “Ele era uma pessoa querida. Aqui na Cantina, escuto muitas histórias que desconhecia. Ele sempre estava muito disposto a ajudar o próximo. Acho importante ter um dia para recordar a memória e também para que a sociedade e os governos não cometam o mesmo erro da época.”
Em homenagem a Zelão, aos pais, às filhas e a todas as vítimas, a data preserva a memória e relembra histórias marcadas pela pandemia. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o momento também serve para discutir medidas necessárias para enfrentar futuras pandemias e oferecer assistência às vítimas e aos familiares.
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