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Luís Bresciani: ‘A região está pronta para receber todo tipo de indústria’

Beatriz Mirelle
06/09/2026 | 19:50
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DGABC André Henriques/DGABC
André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Coordenador da subseção Diesee (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luís Paulo Bresciani avalia que o Grande ABC deixou de ser uma região majoritariamente industrial para se diversificar. Com 7.000 empresas, as sete cidades encontraram em outros nichos a forma de gerar renda. Ao Diário, o doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e professor de Administração Pública da FGV (Fundação Getulio Vargas) destaca que a transformação digital, a eletromobilidade e a descarbonização são as prioridades para impulsionar os investimentos locais.

RAIO-X

Nome: Luís Paulo Bresciani
Aniversário: 1º de dezembro
Onde nasceu: São Paulo (SP)
Onde mora: São Paulo (SP)
Formação: Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp
Um lugar: Guajiru (Ceará)
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: Nelson Mandela
Um livro:Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig
Uma música: O Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa-Lobos
Um filme: O Lado Bom da Vida (2012), de David O. Russel

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Quais foram os principais fatores que contribuíram para a fragilização da atividade industrial na região? O Grande ABC, de fato, perdeu protagonismo?
O Grande ABC não perdeu o protagonismo. O que ocorre é que a indústria se espalhou pelo Brasil. O impulso do setor foi nos anos 1930, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial. A própria fundação dos grandes sindicatos é de 1933. Isso marca um momento de industrialização, que depois se repete com mais intensidade nos anos 1950, com a chegada das montadoras de automóveis e ônibus, caminhões no eixo da Via Anchieta. Esse protagonismo existiu naquela época, mas também existe agora. O Grande ABC é o segundo maior polo industrial do Brasil em termos de emprego. A economia é puxada pela atividade industrial, que interfere positivamente em serviços e comércio. O que aconteceu é que principalmente a atividade do setor automobilístico, que estava concentrada na Região Metropolitana de São Paulo, se espalhou pelo Brasil, rumo ao Sul.

Quais fatores explicam a saída de importantes indústrias? Por que a região deixou de ser tão atrativa para a expansão do setor?
Algumas indústrias optaram por mudar para o Interior, ir para outros Estados ou até sair do Brasil. O principal motivo é o custo da terra. O valor imobiliário passou a ficar extraordinariamente alto na nossa região e a competir com as moradias. Mesmo assim, Mauá, por exemplo, segue com a forte convivência entre indústria, comércio, serviços e residências. As empresas saíram em uma grande proporção, mas ainda temos mais de 7.000 fábricas industriais espalhadas pelas sete cidades e quase 200 mil empregos. Vemos a deseconomia de aglomeração (quando um lugar cresce tanto que os problemas superam as vantagens de viver ou trabalhar ali). Aqui, há muitos congestionamentos. Isso começa a atrasar a entrega de produtos ou a saída de produtos das fábricas. As empresas optam por ir para um lugar que esteja menos lotado tanto de população quanto de veículos. Isso justifica o fato de que a indústria no Grande ABC deixou de se expandir. Essa ampliação poderia ter sido maior se não tivéssemos um processo de urbanização e de adensamento populacional igual o que tivemos.

As saídas da Ford e da Toyota reforçaram a sensação de perda de protagonismo industrial. Como o sr. avalia esse processo?
A Ford saiu do País. A Toyota investiu no Interior. São escolhas diferenciadas de caso a caso. Quando essa fábrica fecha, é claro que aquele local individualmente sente um efeito muito grave em termos de emprego e renda.

Em meio à pluralidade de empresas, quais são os desafios para a região aproveitar a sua totalidade e conseguir uma expansão industrial?
O Grande ABC é essa diversidade, tanto econômica como industrial. Nós saímos de uma região que era majoritariamente e fundamentalmente industrial para uma que é totalmente diversificada. A gente tem uma indústria forte, serviços fortes, comércio forte. Nós temos o quarto maior potencial de mercado consumidor do Brasil. Mas dois setores são os principais. Um é o metal mecânico, que envolve automotivo, puxa fortemente vários outros subsetores, como plástico e borracha. O outro é setor químico e petroquímico. Essas são as duas grandes cadeias desde o início do século XX. Também temos alimentos e cosméticos. Há uma força de trabalho industrial preparada, que tem uma tradição de trabalho industrial.

Como o sr. avalia o futuro da indústria automobilística no Grande ABC diante da eletrificação e da transformação digital? A região está preparada para absorver essas novas tecnologias?
Há duas missões que são transversais, não são setorializadas: a transformação digital da indústria e a descarbonização. São processos que nós devemos estimular no tecido industrial como um todo e dar suportes, recursos e possibilitar fomento para que ambos ocorram, principalmente em empresas de pequeno porte, que normalmente têm menos capacidade própria para investir em mudanças intensas. A transformação digital já se iniciou nos anos 1980, na discussão sobre automação. Já sobre a descarbonização, ao contrário, temos pouca experiência anterior no Brasil como um todo. Precisa de muito recurso para modificar as matrizes energéticas das empresas industriais da região, para modificar o funcionamento, o tipo de máquina, para chegar em um resultado que seja o de menor emissão possível de gases de efeito estufa por parte da indústria.

Diante do avanço das montadoras chinesas no Brasil, em quais segmentos o Grande ABC poderia buscar novas oportunidades dentro da eletromobilidade?
A eletromobilidade é uma tendência internacional. Ela dialoga com essa demanda global pela redução das emissões de gases de efeito estufa e da poluição nas grandes metrópoles, que é também uma agenda de saúde coletiva. Existe uma pressão que vem lá do Acordo de Paris, dos painéis de mudança climática etc. E a indústria chinesa de automóveis saiu na frente. Desenvolveu tecnologia e passou a adotar esses recursos dentro e fora do território. É algo que nós iremos conviver nas próximas décadas e que, inclusive, vai demandar parcerias entre as chinesas e as montadoras ocidentais. No Grande ABC, há uma grande oportunidade de focar nos veículos pesados. Nós temos duas fábricas de veículos pesados produzindo caminhões e ônibus. Há uma demanda reprimida por ônibus menos poluentes. Nossa matriz de transporte de longa distância é majoritariamente rodoviária, não ferroviária. Quanto mais eficientes e menos poluentes forem esses caminhões, melhor do ponto de vista coletivo. Então, olhar para essa oportunidade de somar na eletromobilidade com veículos pesados é algo que nós temos potencial de aproveitar na própria região.

Como o sr. avalia a reação da indústria regional à decisão do governo de manter incentivos para a entrada de montadoras chinesas?
A questão dos incentivos e a posição do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC é priorizar a produção nacional. A permissão de entrada de veículos desmontados para uma simples montagem não é produção nacional propriamente. Uma coisa é ter uma fabricação completa, com um parque de fornecedores de autopeças e de componentes em torno da fábrica principal ou espalhado pelo Brasil. Outra coisa é trazer tudo desmontado e simplesmente fazer uma montagem muito básica aqui. Isso não interessa nem do ponto de vista comercial, nem do ponto de vista da geração de emprego e tecnologia. É importante que haja transferências de recursos tecnológicos. Existe um processo de transformação das atividades industriais, mas o Grande ABC está pronto para receber todo tipo de indústria, especialmente essas de maior intensidade tecnológica, que devem merecer mais interesse regional.

Quais estruturas e instituições podem ajudar a região a avançar nessa agenda?
Os parques tecnológicos são um agente importante para o fortalecimento da nossa indústria, assim como os institutos federais. A UFABC (Universidade Federal do ABC) faz muitas coisas em termos de apoio e suporte ao desenvolvimento industrial. Vários elementos que podem contribuir para impulsionar a produção e desenvolver as tendências tecnológicas que a gente ainda não tem ou não domina tanto, como é o caso da eletromobilidade. Apesar disso, temos a própria Eletra fabricando em São Bernardo. O importante é que estejamos presentes no processo de transição para uma indústria mais intensiva em conhecimento do que já temos.

Para o sr., os principais desafios do Grande ABC hoje são a transformação digital, a descarbonização e a busca por novos segmentos dentro da eletromobilidade. Há algum outro impasse para garantir maior competitividade regional?
Não só isso. A modernização dos processos, principalmente relevante para as empresas de pequeno e médio porte industriais. Seja das ações produtivas ou até mesmo gerenciais. O que a gente chama de extensionismo tecnológico (levar conhecimento científico e técnico de instituições de ensino para resolver problemas reais de empresas, governos e comunidades). Isso é uma coisa importante, já aconteceu no passado e pode voltar a acontecer. O parque tecnológico de Santo André, por exemplo, deve funcionar como apoio às empresas industriais do Grande ABC como um todo. Esse desafio é muito maior do que olhar apenas para a cidade. O Consórcio (Intermunicipal do Grande ABC), com a participação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), tem um projeto de quatro anos de pesquisa e de ação com a Universidade Federal do ABC, chamado de Reconversão Industrial, cujo espírito é olhar para as necessidades de setores ou empresas que precisam se transformar radicalmente, precisam mudar o seu modelo de negócios. A ideia é que a universidade desenvolva métodos e desenvolva estudos que permitam apoiar empresas com esse perfil. Esses são desafios que valem independentemente do setor. Em geral, as nossas empresas de pequeno e médio porte precisam de suporte financeiro e tecnológico.




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