Home Titulo Entrevista da Semana Titulo Entrevista da Semana

Aroaldo Silva: ‘Novo tarifaço afeta a região nos setores de maior valor agregado’

João Vittor Espindula
21/09/2026 | 08:02
Compartilhar notícia
DGABC Divulgação
Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Aroaldo Oliveira da Silva afirma que o novo tarifaço dos Estados Unidos (anunciado em julho) já produz reflexos na indústria regional, especialmente nos setores de máquinas, defesa e borracha. O dirigente defende a busca por novos mercados, a reorganização das cadeias produtivas e o fortalecimento do mercado interno para reduzir os impactos. Silva também destaca a necessidade de ampliar o suporte às pequenas e médias empresas, em parceria com Sebrae e ApexBrasil, para prepará-las às exigências de novos mercados.

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos produz reflexos negativos para a indústria do Grande ABC?

Sim, já produz, desde do ano passado, quando teve as primeiras sobretaxas por parte dos Estados Unidos, já produziu reflexos aqui na indústria de máquinas, na de defesa aqui da região assim como na de borracha. Então, vários setores foram atingidos. 

DGABC

Como o sr. avalia essa segunda rodada de tarifas dos Estados Unidos e qual deve ser o impacto no Grande ABC, considerando que a primeira rodada já afetou US$ 141 milhões em exportações da região?

Vemos com preocupação, porque a região é afetada, principalmente nos setores de maior valor agregado. Por isso, acreditamos que precisamos seguir buscando novas oportunidades e mecanismos para mitigar esses impactos. Estamos dialogando muito e esperando também algumas posições do governo federal, que tem escutado os setores econômicos, para tentar ver se conseguimos reverter alguns desses impactos. 

O programa Brasil Soberano passou a oferecer R$ 22,6 bilhões em crédito para empresas afetadas pelo tarifaço. Na avaliação do sr., esse mecanismo é suficiente para evitar que empresas adiem investimentos ou reduzam postos de trabalho?

É um mecanismo de extrema importância para enfrentar os impactos neste momento. Entretanto, precisamos pensar em novos mercados para o futuro, na reorganização das cadeias produtivas e, inclusive, no fortalecimento do mercado interno.

Esse cenário pode abrir oportunidades para empresas brasileiras em outros mercados?

Acredito que vai forçar a gente se mexer. Algumas semanas atrás tive uma reunião com o ministro da Indústria, o Márcio Elias Rosa. No próximo período ele vai rodar alguns países, pensando em novos mercados e até fizemos um convite oficial para que venha à região dialogar um pouco com a gente (o ministro participará amanhã de seminário promovido pela Agência de Desenvolvimento, em que será debatida a Nova Indústria Brasil).

Como as empresas do Grande ABC podem reduzir a dependência de mercados específicos diante desse ambiente?

As empresas têm de, primeiramente, se prepararem. Quando falamos das grandes empresas, as transnacionais, as âncoras, elas já têm essa visão, até porque as sedes estão em outro país. Elas conseguem ter uma compreensão maior do mercado, das exigências de outras demandas. Porém, quando falamos da média e da pequena empresa, aí tem uma dificuldade de adequação, e isso é algo que estamos discutindo junto com o Sebrae e ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), como tornamos mais robusto esse processo de preparação das empresas. Primeiro precisamos ter um mercado, dependendo do setor econômico, mas depois a empresa tem de estar preparada para exigências desse mercado. Então, precisamos de uma preparação do governo federal e de suporte também do Estado. Porém, temos de tentar organizar nossas iniciativas aqui da região, para dar o suporte para essas empresas menores.

Quais foram os principais avanços do projeto Grande ABC para o Mundo e quais são os próximos passos para ampliar a presença das empresas da região no mercado internacional?

Seguimos articulando novas possibilidades de mercados para a região. Fizemos uma cooperação com a FNP (Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos), visando articulações a partir das missões realizadas pela entidade. Estamos dialogando com o Sebrae, a ApexBrasil e o governo federal para construir novas cooperações voltadas à abertura de novos mercados. Além disso, realizamos ações específicas com a Colômbia, cooperando em diversas áreas, como a bioeconomia, bem como com outros países.

Sobre a reindustrialização, muito se fala sobre isso no Brasil e na prática, ela já começou ou ainda está apenas no discurso?

Tem debate, tem programa e existe uma política federal, que é a Nova Indústria Brasil. O impacto direto da região está na indústria da mobilidade, especialmente na automotiva. Já percebemos esse avanço e essa discussão, principalmente em todo o processo de descarbonização da produção e nas iniciativas de transformação digital. Há também a criação de novas cadeias produtivas. Existe todo o debate sobre a consolidação da indústria da saúde no Brasil, entre outras cadeias que o governo federal está organizando. Além dos processos de transformação digital, de descarbonização, temos interesse em trazer essas novas cadeias para o Grande ABC. A indústria da saúde, por exemplo, é uma possibilidade enorme para a região.

O Grande ABC pode voltar a ser protagonista da indústria nacional?

O Grande ABC ainda é protagonista da indústria nacional. Por exemplo, no caso da mobilidade, grande parte da discussão sobre mobilidade elétrica, transporte coletivo elétrico e ônibus elétricos está na região, com Eletra, Mercedes e a Scania. Além da eletrificação, há também a questão dos ônibus a gás como alternativa para a descarbonização, e a Scania, tem apostado nisso. Temos também parte da indústria de defesa. A Saab, por exemplo, participa do processo de produção do avião Gripen, que ocorre em parte no Grande ABC. A Thales, que é a Omnisys, fabrica radares que estão presentes em todos os aeroportos do Brasil, inclusive no submarino de propulsão nuclear. Além da área de defesa, temos as montadoras, o primeiro polo petroquímico do Brasil e uma presença muito forte da indústria. Temos também uma refinaria da Petrobras. Então, temos uma indústria ainda pujante na região. Apesar de sofrermos muito os efeitos dos últimos anos de desindustrialização, a indústria do Grande ABC ainda é referência.

O Brasil consegue competir internacionalmente sem uma política industrial de longo prazo?

Sem uma política industrial de longo prazo, não conseguimos competir, até porque precisamos organizar todo esse ecossistema industrial, pensando nos desafios que o mundo tem hoje e nos gargalos. Por isso, é importante o debate que o governo federal está fazendo sobre a Nova Indústria Brasil, para dar um norte sobre o futuro do setor. É preciso ter uma articulação entre a própria indústria e os entes da federação, governo federal, estadual e locais, para termos uma indústria robusta. O Brasil ainda tem uma indústria importante no mundo, mas perdeu muito. Por isso, é importante termos ferramentas e instrumentos, seja de financiamento, como BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), seja de defesa comercial, que também temos debatido muito, inclusive nesse debate do tarifaço.

A transição para veículos elétricos e híbridos é inevitável. O Grande ABC está preparado para essa mudança?

A eletrificação dos veículos é uma tendência para o futuro. Temos clareza de que os veículos serão eletrificados. Existe um grande debate sobre quais serão as rotas tecnológicas para essa eletrificação. Hoje, estamos muito reféns da bateria. Isso não é um caso apenas brasileiro, mas mundial, porque a China detém o conhecimento de toda a cadeia produtiva das baterias. Por isso, há muitos debates sobre quais serão essas rotas tecnológicas. No Brasil, o primeiro debate é sobre a descarbonização. Precisamos caminhar para a descarbonização da mobilidade, principalmente nos centros urbanos, em relação às emissões de gases particulados. Por isso, algumas rotas tecnológicas são importantes para essa descarbonização. Temos o etanol, os biocombustíveis e o gás em abundância. Essas são alternativas para a descarbonização da mobilidade. Porém, precisamos organizar esse ecossistema para que, mais à frente, os veículos de fato se consolidem como eletrificados e aí entra o debate sobre os híbridos. O Grande ABC vem avançando nesse sentido. É o caso da Volks, que vai lançar um veículo híbrido, da GM e das montadoras de ônibus, como Mercedes, Scania e Eletra, que já estão caminhando nessa direção. A Eletra é fruto desse debate. A empresa já produz ônibus eletrificados e vai começar a produzir ônibus elétricos próprios. Então, o Grande ABC já está na rota da descarbonização e da eletrificação veicular.

Qual é o maior gargalo para a indústria do Grande ABC?

Temos um problema com os investimentos por causa da taxa de juros. Isso ainda é um problema enorme, não só para a região, mas para o Brasil de forma geral. É um problema em relação aos próximos passos que estamos discutindo, apesar das últimas sinalizaões de corte de juros do Copom (Comitê de Política Monetária), que ainda são muito modestas. Então, os juros são um problema. O desafio da formação e qualificação profissional é saber o que ofertar para esse novo mercado de trabalho, além das tecnologias específicas do que a empresa está produzindo. Hoje, em um mundo digitalizado, o conhecimento em tecnologia da informação perpassa todos os setores econômicos. Então, temos de cuidar muito dessa formação e qualificação profissional e, de fato, integrar todo o ecossistema do Grande ABC, temos universidades aqui que são referências nacionais, parques tecnológicos que estão se consolidando a cada dia e um distrito tecnológico do Senai. 

Quais são os projetos da Agência de Desenvolvimento que têm potencial para mudar o perfil econômico da região?

Estamos discutindo quais são as vocações da região para o próximo período. Uma coisa é clara: o Grande ABC, durante muito tempo, vai ter a vocação industrial. Acho que o maior debate atualmente é como organizar principalmente o ecossistema de inovação para dar suporte a essa indústria no próximo período, além de avaliar as possibilidades para essas novas cadeias que estão sendo discutidas no Brasil, principalmente por meio da Nova Indústria Brasil

RAIO-X

Nome: Aroaldo Oliveira da Silva

Aniversário: 5 de agosto

Onde nasceu: São Bernardo

Onde mora: São Bernardo

Formação: Ciências Sociais, pela Fundação Santo André

Um lugar: São Bernardo 

Time do coração: São Paulo Futebol Clube

Alguém que admira: Meu pai

Um livro: A História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman

Uma música: Tempo perdido, do Legião Urbana

Um filme: 2001: Uma Odisseia no Espaço, do Stanley Kubrick, filme de 1968




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;