Patricia Aldecoa: ‘Decisão monocrática não significa, por si só, que seja ilegal’
FOTO: Denis Maciel/DGABC

Advogada constitucionalista e comunicóloga de São Caetano, Patricia Aldecoa faz uma análise sobre a crise institucional que atinge o STF (Supremo Tribunal Federal). Ministros da mais alta Corte do País acabaram envolvidos em investigações do banco Master. A proximidade de familiares ou até dos próprios ministros com o banqueiro Daniel Vorcaro pode colocar em xeque as decisões. Outros pontos abordados na entrevista são a controversa fala de Gilmar Mendes sobre ética, “respeitada até mesmo na máfia”, e a que ponto as movimentações no Poder Judiciário podem influenciar na hora do voto para as escolhas de deputados federal e estadual, senador, governador e presidente no primeiro turno das eleições gerais marcadas para o próximo domingo, 4 de outubro.
Aniversário: 24 de agosto
Formação: Direito e Comunicação
Time do coração: Corinthians
Alguém que admira: Cláudio (pai), Patro (mãe) e Alexandre (irmão)
Um livro: The Mists of Avalon (As Brumas de Avalon), de Marion Zimmer Bradley
Uma música: L-O-V-E, de Keyshia Cole
Um filme: Contact (Contato), dirigido por Robert Zemeckis, 1997
Evidentemente, não se pode impedir filhos e mulheres de ministros de exercerem as devidas profissões, mas como impedir nos corredores possíveis articulações que poderiam influenciar em decisões? Há mecanismos para mitigar possíveis danos ou afastar qualquer influência?
Há outras salvaguardas?
No meio político há quem considere os atos, muitas vezes monocráticos, de Alexandre de Moraes como legais; outros apontam para ações tendenciosas. O ministro tem seguido estritamente a Constituição, dosando as penas diante de suas convicções ou há falhas na aplicação de penas?
Uma decisão monocrática não significa, por si só, que seja ilegal ou inconstitucional. O regimento interno do Supremo permite ao relator decidir individualmente determinadas questões, especialmente medidas cautelares e matérias processuais, embora a colegialidade e a possibilidade de revisão pelo órgão competente sejam garantias fundamentais do sistema. No caso específico do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inclusive, é importante esclarecer que sua condenação não foi uma decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes. Ela foi proferida pela Primeira Turma do STF, por maioria de votos, em processo no qual Moraes atuou como relator. Houve, inclusive, divergência dentro do próprio Tribunal, com o ministro Luiz Fux votando pela absolvição. Quanto a indagações de que determinado ministro estaria dosando penas de acordo com suas convicções políticas, eu teria muita cautela. Isso porque, em âmbito jurídico, não é possível atribuir uma motivação dessa natureza sem elementos objetivos que a demonstrem. A dosimetria da pena não é um ato de livre vontade do magistrado. O artigo 59 do Código Penal estabelece os critérios que devem ser considerados na fixação da pena, como culpabilidade, antecedentes, circunstâncias, consequências do crime e os elementos necessários à reprovação e à prevenção da conduta. Além disso, a Constituição exige que toda decisão judicial seja fundamentada. Isso não significa, porém, que a dosimetria seja uma operação matemática ou que não possa ser juridicamente questionada. Nos próprios julgamentos relacionados ao 8 de Janeiro houve divergências entre ministros quanto ao enquadramento dos crimes e à extensão das penas. Em alguns dos primeiros processos, por exemplo, ministros chegaram a propor condenações substancialmente diferentes das fixadas pela maioria. Portanto, existe espaço legítimo para discutir proporcionalidade, individualização da pena, eventual concurso de crimes e adequação da sanção à conduta concreta de cada réu. Essa é uma discussão jurídica perfeitamente possível e, a meu ver, mais importante do que tentar identificar a posição política pessoal do julgador.
O impacto na credibilidade do Supremo é significativo, porque uma Corte Constitucional não depende apenas da legalidade de suas decisões; depende também da confiança pública na independência, na imparcialidade e na transparência de seus ministros. Quando surgem investigações e suspeitas envolvendo relações entre integrantes da Corte, familiares, empresários e agentes políticos, ainda que não exista conclusão sobre eventual responsabilidade criminal, há inevitavelmente um desgaste institucional. E isso já aparece nos números: o <CF51>Datafolha</CF> mostrou que 48% dos brasileiros dizem não confiar no STF, o maior índice de desconfiança da série histórica. No aspecto eleitoral, acho importante fazer uma distinção. Não é possível afirmar que essa crise beneficiará este ou aquele candidato, mas é impossível ignorar que entrou na campanha a poucos dias do primeiro turno. O Datafolha mostrou que 47% dos eleitores dizem que a crise no STF e o caso Master terão alguma influência na escolha para presidente. Então, o problema ultrapassa os personagens envolvidos. Quando quase metade do eleitorado afirma que uma crise no Supremo interfere na sua decisão eleitoral, deixamos de falar apenas de uma investigação. Passamos a falar de confiança institucional.
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