Causou surpresa a decisão do Conselho Diretor da Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo) de instaurar o processo de caducidade do contrato do governo do Estado com a concessionária Next Mobilidade por atraso na entrega do projeto do BRT-ABC, o corredor de ônibus de alta velocidade que vai ligar São Bernardo à Capital. São dois os principais motivos do assombro. O primeiro é que o prazo que a empresa tem para concluir as obras, 31 de outubro, ainda não se esgotou. Embora seja plausível especular que a meta não vai ser respeitada, dada a lenta execução do cronograma, o fato é que o período previsto segue em curso.

Por que, então, a Artesp decidiu antecipar a abertura do procedimento de punição à Next? E mais: por que fazer isso apenas um dia depois de o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) assegurar a reeleição ao Palácio dos Bandeirantes, sede do Poder Executivo paulista? E essa é exatamente a segunda razão da perplexidade com que os usuários do Grande ABC recebem a determinação da agência reguladora, que pode atrasar ainda mais a entrega do modal, prometido pelo Estado para 2024. Uma medida técnica de tal monta, que provoca tamanho impacto no cotidiano dos cidadãos paulistas que dependem do transporte público, não deveria obedecer ao calendário eleitoral.
Não restam dúvidas de que Estado e agência, por respeito aos contribuintes que pagam pesadíssimos impostos para sustentar a máquina administrativa, devem cobrar da empresa o cumprimento do contrato. Mas a maneira como ambos têm tratado a questão fere o bom senso. O paulista já precisou arcar com a trapalhada do governo no rompimento unilateral do contrato da Linha 18-Bronze, em 2019, que, além de deixá-lo sem o sonhado Metrô, ainda lhe fez pagar a conta de R$ 344 milhões a título de indenização ao Consórcio Vem ABC. Não é justo que a região agora fique sem o BRT e, mais uma vez, seja obrigada a botar a mão no bolso para custear a incapacidade dos homens públicos de São Paulo.