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‘A leitura é ferramenta de existência’, diz Penélope Martins

Fabio Saraiva
12/10/2026 | 09:30
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FOTO: Arquivo Pessoal Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Moradora de Santo André, a escritora Penélope Martins passou a infância em Jordanópolis, bairro de São Bernardo, e é semifinalista do Prêmio Jabuti na categoria juvenil com Cartas de Cecília. Na conversa a seguir, ela fala sobre a responsabilidade de famílias e professores na aproximação de crianças e jovens com os livros, uma mensagem importante neste Dia das Crianças. Conta ainda como foi sua trajetória da advocacia à literatura e explica a importância da formação de leitores. Sem romantizar a leitura, destaca seu papel no autoconhecimento e defende a escola pública como espaço de inclusão. Também aborda a censura e o racismo nas obras literárias. Os finalistas do Jabuti serão conhecidos nesta quarta-feira (14). Estamos na torcida.

RAIO X

Nome: Penélope Martins

DGABC

Aniversário: 1º de setembro

Onde nasceu: Mogi das Cruzes

Onde mora: Santo André

Formação: Direito

Um lugar: Parque Central (Sto.André) 

Time do coração: Palmeirense por promessa a avó Laura, mas com carinho pelo Corinthians

Alguém que admira: Lygia Fagundes Telles

Um livro: A Disciplina do Amor, de Lygia Fagundes Telles

Uma música: Cajuína, de Caetano Veloso

Um filme: Central do Brasil, de Walter Salles

Para quem não acompanha os bastidores do mercado editorial, qual é a importância para um escritor ver um livro disputando o Prêmio Jabuti, um dos principais do País?

É um reconhecimento muito importante, porque você vai construindo uma trajetória. Fui finalista em 2025, com o livro Quando minha mãe voou no 14-Bis, que trata de saúde mental. Agora, sou semifinalista com Cartas de Cecília, ambos na categoria juvenil. O prêmio dá visibilidade ao autor, mas, entre as artes, acho que a literatura talvez seja a que menos tenha atenção na mídia. O caminho do escritor é longo, solitário e exige perseverança. Escrevo todos os dias e encaro a escrita como um ofício. Quanto mais prêmios e festivais literários tivermos, acredito que mais alcançaremos os leitores.

E como funciona o desenvolvimento da escrita a quatro mãos com o autor Tiago de Melo Andrade, que escreveu Cartas de Cecília com a sra.?

Com o Tiago, tenho facilidade para complementar os imaginários. Parece que nossos imaginários conversam. Em Cartas de Cecília, não escrevemos um capítulo cada um: escrevemos misturado, um revisa o texto do outro e vai mexendo. No final, a escrita fica tão intrincada que não sabemos ao certo quem colocou determinada ideia no papel. Cada um deixa traços da própria personalidade, mas nós mesmos ficamos confusos. É um trabalho de desapego, de construir junto e não prezar somente pelo que a própria estética desenha.

A sra. teve uma carreira na área jurídica antes de se dedicar à literatura. O que motivou essa mudança?

Fui a primeira pessoa da minha família a ingressar na universidade. Cresci entre trabalhadores braçais: avó costureira, avó agricultora, avô ferroviário. Escolhi o Direito porque gostava de ler, escrever e me comunicar. Como advogada, sentia que contava histórias, embora com uma roupagem técnica. Minha família também contava histórias, cantava e compunha. Depois, com meus dois filhos adotivos, proporcionava a eles e aos amigos experiências da minha infância, com histórias e brincadeiras. (A escritora) Dalila Teles Veras me viu contando histórias e disse que precisava escrever para crianças. Fui seguindo pelo fazer. Quando a advocacia já não dava conta do que queria realizar, aproximei-me de Dalila e propus encontros de famílias com crianças. Fizemos o Construindo Leitores durante alguns anos.

Por que a sra. costuma criticar o discurso que trata a leitura apenas como um “prazer leve”, defendendo que ler pode ser tão desafiador quanto entrar em um labirinto?

As pessoas falam do prazer de ler como se fosse um caminho de unicórnios coloridos, com coisas somente doces e agradáveis. Ler é entrar numa história para se encontrar. E você não encontra apenas os dias felizes: encontra a frustração, o medo e a solidão. Não estou dizendo que ler precisa ser muito duro ou difícil. O prazer está também no autoconhecimento, em compreender melhor uma situação que causava medo. A literatura é lenta, como um filtro de barro: a água vai pingando. Precisamos dar tempo para o leitor estabelecer suas conexões.

De que modo a literatura na escola pública ajuda o estudante a desenvolver um pensamento livre e autônomo?

O leitor constrói sentidos a partir do próprio imaginário, do que pensa e sente. O mediador é importante, mas não é mais importante que o leitor, que se torna mediador de si mesmo à medida que ganha autonomia. A escola pública precisa ser o lugar da inclusão, onde qualquer pessoa seja bem-vinda e se sinta integrante. A narrativa literária oferece suporte para relacionar nossas vivências às dos outros e construir uma experiência coletiva.

Como a sra. analisa a censura nas escolas, como casos envolvendo O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, e o clássico A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga? Por que temas como racismo, identidade e liberdade provocam receio em parte dos adultos quando aparecem em livros infantojuvenis?

Por um lado, vejo até com otimismo: a denúncia da censura pode fazer uma ideia alcançar um território maior. Você controla mais facilmente o vento do que o pensamento. Mas nunca podemos perder a capacidade de nos espantar com injustiças, nem normalizar um livro censurado. Conheço essa situação com Minha Vida Não É Cor-de-Rosa, cuja protagonista passa por assédio sexual. Já ouvi de profissionais de escolas particulares que retiraram o livro da lista para evitar problemas com os pais. As famílias às vezes não querem tratar de assuntos que existem dentro delas. É como negar uma doença letal: fingir que ela não existe não a faz desaparecer. As escolas públicas abraçaram o livro, distribuído pelo PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático). Converso com turmas para manter o debate vivo e prefiro destacar os mediadores que desafiam a censura.

Diante de obras históricas que trazem expressões e conceitos racistas da época em que foram escritas, como do escritor Monteiro Lobato, na sua opinião, o caminho da escola deve ser “cancelar” o autor ou promover uma leitura crítica e contextualizada com os alunos?

Uma coisa é negar a existência de um autor com o alcance de Lobato. Outra é perpetuá-lo como o grande patrono da infância brasileira. Rejeito a censura, mas defendo repensar essa associação. Não basta justificar o racismo pela época: já havia pessoas antirracistas. Como oferecer a uma criança negra uma história na qual ela é desumanizada? A contextualização depende de maturidade. Meu filho mais velho é negro, e escolhi não ter Lobato como autor de preferência dos meus filhos. Quis que ele se afeiçoasse a outras narrativas. Não significa fingir que o racismo não existe. São muitas camadas. Temos literatura brasileira contemporânea muito boa para descobrir.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta que mais da metade da população não lê livros, 53% do total. Qual é a importância de continuar lendo com os filhos depois da alfabetização?

As famílias acham fofo ler para crianças pequenas, mesmo quando os adultos não têm uma atitude leitora. Mas ler junto exige nosso bem mais precioso: o tempo. Minha crítica é cautelosa, porque as pessoas chegam cansadas do trabalho. Talvez pensem que o livro serve apenas para ensinar, sem perceber a aproximação que proporciona. Depois, o filho entra na adolescência, fecha o quarto, e falta conversa. Precisamos construir essa convivência. Investir em leitura é barato e traz resultados positivos para a educação. Precisamos fazer com que as salas de leitura sejam vivas também para a comunidade, para as famílias escolherem livros e levarem para casa. Ler com o filho no parque é de graça.

Em rotinas onde celulares e telas disputam a atenção da família a cada segundo, como introduzir os livros na vida de crianças e jovens sem que a leitura pareça uma obrigação escolar chata ou um castigo imposto pelos pais?

Quem coloca o celular na mão da criança é um adulto. Precisamos oferecer instrumentos para viver a infância: brincar, mexer na terra, na areia, na água. A criança pequena precisa ler ao nosso lado e experimentar a materialidade do livro. A educação infantil e o ensino fundamental não precisam de telas. A proximidade se constrói conversando, jogando e fazendo coisas juntos. Também precisamos dar espaço para não fazer nada, porque assim abrimos espaço para criar. Eu brincava com minha mãe de observar as nuvens e imaginar formas. Aprendemos a enxergar também nessa brincadeira do ócio.

O que iniciativas como o do jogador de futebol Gustavo Scarpa, indicando autores, ensinam sobre a necessidade de tirar a literatura dos pedestais acadêmicos e aproximá-la da vida das pessoas comuns?

O Gustavo mostra que um ser humano não faz uma coisa só: é jogador e leitor entusiasmado. O melhor mediador fala do livro de maneira tão apaixonada que faz outras pessoas lerem. Você pode não gostar de uma indicação e tentar outra. Para falar de livros, basta ser leitor. Quanto mais lemos, mais encontramos livros que ainda não lemos. Brinco que um bom jeito de enganar a morte é ser infinito na leitura. Ela vê os livros na cabeceira e nos dá mais tempo para ler. Vivemos tantos corpos, territórios, culturas e tempos que nos sentimos eternos.

Diante dos desafios da educação pública no Brasil, qual é o papel insubstituível que os professores desempenham para garantir que o livro alcance todas as crianças?

Os professores têm algumas missões impossíveis diariamente, entre elas fazer ler. A escola tem papel fundamental, mas enfrenta desafios materiais e cobranças por metas. Não adianta marcar metas num sistema digital se os estudantes não conseguem interpretar um texto. A leitura é ferramenta de existência: dizer quem somos, de onde viemos e o que queremos. O professor precisa ser valorizado, mas não faz esse trabalho sozinho. Precisa de instrumentos e de condições para a leitura acontecer. As famílias também precisam dedicar tempo à convivência. E professores e bibliotecários envolvidos com leitura podem ocupar os palcos dos eventos literários, oferecendo contribuições valiosas.

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