Home Titulo Viral Titulo Condição hereditária

Isabel Teixeira e síndrome de Li-Fraumeni: 7 pontos para entender quando a genética muda a prevenção do câncer

Especialista explica como conhecer o risco pode orientar um acompanhamento mais individualizado

15/10/2026 | 11:05
Compartilhar notícia
DGABC FOTO: Reprodução
FOTO: Reprodução Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


 A revelação de que Isabel Teixeira tem síndrome de Li-Fraumeni chama atenção para uma diferença que ainda provoca muita confusão quando o assunto é genética: ter predisposição para desenvolver câncer não é o mesmo que ter a doença. A condição é rara e está relacionada, principalmente, a alterações hereditárias no gene TP53, importante para os mecanismos de proteção do organismo contra a formação de tumores.

Quem apresenta a síndrome pode ter um risco aumentado de desenvolver diferentes tipos de câncer ao longo da vida. A descoberta, no entanto, não permite afirmar que um tumor necessariamente surgirá. Na prática, a informação genética muda principalmente a maneira como a saúde passa a ser acompanhada, permitindo avaliar estratégias específicas de vigilância e rastreamento.

Para a Dra. Ananda Arruda (CRM-CE 24629), médica com atuação em Nutrologia Clínica e Medicina de Precisão, com foco em genética e saúde metabólica, conhecer características individuais pode ajudar a tornar o cuidado mais direcionado. A seguir, ela explica sete pontos importantes para compreender o que significa descobrir uma predisposição hereditária.

DGABC

1. Predisposição genética não é diagnóstico

É natural que a palavra “câncer” associada ao resultado de um teste genético provoque medo. Mas são situações diferentes. Uma alteração relacionada à síndrome de Li-Fraumeni indica maior suscetibilidade ao desenvolvimento de determinados tumores. Ela não significa que exista um câncer naquele momento e também não permite determinar exatamente se ou quando a doença aparecerá.

“Um resultado genético precisa ser compreendido como uma informação sobre risco, e não como uma previsão absoluta do futuro. Quando identificamos uma predisposição, ganhamos a oportunidade de pensar o acompanhamento daquela pessoa de maneira mais individualizada. O conhecimento pode gerar preocupação inicialmente, mas também pode se transformar em uma ferramenta importante de prevenção e cuidado”, explica Ananda.

2. A história da família pode trazer pistas importantes

Não é a existência de um único parente com câncer que necessariamente indica uma síndrome hereditária. O que costuma despertar maior atenção é o conjunto da história familiar: tumores diagnosticados muito cedo, diferentes tipos de câncer entre parentes próximos ou uma mesma pessoa apresentando mais de um tumor primário, por exemplo.

“Quando avaliamos risco genético, precisamos enxergar a família como uma história, e não apenas contar quantas pessoas tiveram câncer. O tipo de tumor, a idade em que apareceu e o grau de parentesco são informações que ajudam a entender se existe um padrão que merece uma investigação mais aprofundada”, afirma a médica.

3. Teste genético não deve ser feito apenas por curiosidade

A facilidade de acesso aos testes genéticos fez crescer o interesse por exames capazes de apontar riscos futuros. Mas receber uma lista de variantes sem orientação adequada pode trazer mais dúvidas do que respostas. A indicação do teste e, principalmente, a interpretação do resultado devem considerar história pessoal e familiar.

“Não basta encontrar uma alteração genética. Precisamos saber se ela tem significado clínico, qual é a evidência disponível e se aquela descoberta realmente muda alguma conduta. A medicina de precisão não é simplesmente fazer mais exames, mas utilizar a informação certa para tomar decisões mais adequadas para cada pessoa”, ressalta Ananda.

4. Quem tem risco elevado pode precisar de outro calendário de exames

Uma das principais mudanças após a identificação de uma síndrome hereditária está no rastreamento. Dependendo da condição, idade, sexo e histórico individual, o acompanhamento pode começar mais cedo, ocorrer em intervalos diferentes ou incluir exames que não fariam parte da rotina de uma pessoa com risco habitual.

“Quando sabemos que existe uma predisposição importante, podemos deixar de trabalhar apenas com protocolos gerais e construir um acompanhamento baseado naquele risco. Isso não significa viver fazendo exames, mas escolher de maneira criteriosa quais avaliações são necessárias e em quais momentos elas devem acontecer. O objetivo é aumentar as possibilidades de identificar alterações precocemente”, explica.

5. Hábitos saudáveis continuam importantes, mas não apagam a genética

Alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado, controle do peso e abandono do tabagismo fazem parte de uma rotina de prevenção e contribuem para a saúde de maneira ampla. O cuidado, porém, está em não transmitir a ideia de que determinados hábitos seriam capazes de “desligar” uma síndrome hereditária.

“Eu trabalho muito com a integração entre genética, metabolismo e estilo de vida, mas é fundamental não criar falsas promessas. Uma alimentação saudável e um bom controle metabólico são importantes para a saúde como um todo, porém não eliminam uma alteração genética hereditária. O estilo de vida complementa o cuidado, não substitui o acompanhamento indicado para aquela predisposição”, pontua Ananda.

6. Uma descoberta genética também pode interessar aos familiares

Quando uma alteração hereditária é identificada, a informação pode ter importância para outros integrantes da família. Isso não significa que todos devam correr para fazer testes. A avaliação especializada ajuda a identificar quem realmente pode se beneficiar da investigação e como conduzi-la sem gerar alarmismo.

“Uma informação genética pode ter repercussões que vão além daquela paciente. Por isso, o aconselhamento é tão importante. É possível avaliar quem na família tem indicação de investigação, explicar o que aquele resultado representa e até discutir questões relacionadas ao planejamento reprodutivo. Informação genética precisa vir acompanhada de orientação”, diz a médica.

7. Conhecer o risco deve ampliar o cuidado, não limitar a vida

Talvez um dos maiores desafios seja emocional. Saber que existe uma predisposição aumentada para câncer pode fazer com que cada exame ou sintoma seja acompanhado por medo. Por isso, o objetivo do diagnóstico genético não deve ser colocar a pessoa em permanente expectativa de adoecer, mas oferecer ferramentas para cuidar melhor da saúde.

“Existe uma diferença enorme entre viver com medo de desenvolver uma doença e viver sabendo que existe um risco que pode ser acompanhado. A medicina de precisão deve trazer autonomia. Conhecer a própria genética permite organizar estratégias de cuidado, conversar com profissionais capacitados e tomar decisões com mais informação. O resultado não deve se transformar em uma sentença”, finaliza a Dra. Ananda Arruda.

LEIA TAMBÉM:

Acúmulo de estresse e "Pinkwashing" corporativo aceleram o adoecimento de trabalhadoras


 



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;