A violência doméstica não se sustenta apenas pelo machismo e pela sensação de impunidade dos agressores. Em muitos casos, encontra terreno fértil na dependência econômica que aprisiona mulheres em relacionamentos abusivos. É o que mostra reportagem publicada nesta edição do Diário. Sem renda própria ou com ganhos insuficientes para garantir a subsistência, milhares de brasileiras enfrentam um dilema cruel: permanecer sob ameaça ou romper a relação sem saber como sustentar a si mesmas e aos filhos. A autonomia financeira, portanto, precisa ser reconhecida como instrumento essencial de prevenção e enfrentamento da violência de gênero.
Não basta exigir coragem de quem vive sob agressões. É necessário assegurar condições concretas para que a vítima consiga reconstruir a vida longe do agressor, sem que a pobreza obstaculize a segurança. Esse desafio exige políticas públicas. A ampliação do acesso à qualificação profissional, a intermediação de empregos, o incentivo à contratação de mulheres em situação de vulnerabilidade e a oferta de creches públicas em horário compatível com a jornada de trabalho são medidas fundamentais. Para quem precisa abandonar imediatamente o lar, também são indispensáveis abrigos seguros, auxílio financeiro emergencial, moradia acessível e atendimento psicológico, jurídico e social.
Os municípios têm papel decisivo na criação desta rede de proteção, sem abrir mão de parcerias com os governos estadual e federal. Centros de referência, serviços especializados e programas de transferência de renda devem funcionar de maneira integrada, com acompanhamento individualizado e atenção às necessidades de cada mulher. A proteção não pode terminar no momento em que a vítima deixa a delegacia ou o abrigo. Sem enfrentar tais barreiras, a sociedade continuará cobrando que as vítimas rompam o ciclo da violência sem lhes oferecer os meios necessários para isso. Garantir renda, moradia, trabalho e acesso a serviços públicos é parte da defesa da vida e da dignidade feminina.
LEIA MAIS:
Mulheres sem renda predominam nas denúncias de violência doméstica
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.
Santo André 15° C
Rio Grande da Serra 14° C

