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Luciana Holtz: ‘A saúde mental precisa ser vista no cuidado do câncer’

19/10/2026 | 08:30
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FOTO: Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A psico-oncologista Luciana Holtz, ao perceber a dificuldade de pacientes com câncer em ter acesso a informações sobre o tratamento e seus direitos, especialmente de cuidado com saúde emocional, decidiu criar o site Oncoguia. Em 2003, a iniciativa surgiu como um espaço para divulgar conhecimento, porém, em 2009 se transformou em um instituto que oferece atendimento, grupos terapêuticos, rodas de conversas e cursos, tudo gratuitamente e no formato on-line. Formada em Psicologia, em 1997, com especialização na área hospitalar, Luciana desenvolve ainda palestras e congressos presenciais para pacientes e profissionais da saúde. 

Qual é a importância do cuidado com a saúde mental em pacientes com câncer?
 
O cuidado com o paciente de câncer precisa considerar todas as dimensões da vida, pois a doença provoca um impacto emocional muito significativo. O acompanhamento psicológico é especialmente importante no início da jornada, pois o diagnóstico traz muitas dúvidas, inseguranças e mudanças na rotina. É importante que o paciente consiga reconhecer, administrar e lidar minimamente com essas emoções. Precisamos ter cuidado quando esses sentimentos passam a se manifestar como sintomas de possíveis transtornos mentais. Uma coisa é sentir tristeza, o que é absolutamente compreensível diante de um diagnóstico de câncer, outra é quando essa tristeza se prolonga e evolui para um quadro de depressão. Quando o paciente enfrenta a doença e desenvolve uma depressão, tudo se torna mais difícil, inclusive o próprio tratamento, que pode ser prejudicado.
 
Quais são as maiores dificuldades relatadas pelos pacientes oncológicos?
 

As principais dificuldades estão relacionadas à demora no diagnóstico e no início do tratamento, às negativas de cobertura pelos planos de saúde e às dificuldades de acesso aos tratamentos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Muitos pacientes enfrentam longos períodos de espera para realizar uma biópsia ou iniciar o tratamento, mesmo quando já possuem o diagnóstico confirmado. Há relatos de pacientes que estão com a biópsia em mãos há meses e ainda não começaram o primeiro tratamento. Mesmo quem possui convênio médico, enfrenta a negativa de medicamentos e tratamentos prescritos pelos médicos e o descredenciamento de profissionais e serviços de saúde. Em alguns casos, precisam trocar de equipe médica e de local de tratamento, o que gera insegurança e dificulta a continuidade do cuidado


Além das dificuldades relacionadas ao acesso a serviços de saúde, quais outras necessidades são identificadas?
 

Muitos pacientes procuram ajuda para entender seus direitos e saber como acessar benefícios, como auxílio por incapacidade temporária, aposentadoria por incapacidade permanente e isenções fiscais, quando aplicáveis. A falta de informação dificulta a compreensão da doença, dos exames, das opções de tratamento e dos direitos garantidos aos pacientes. Além disso, muitos utilizam ferramentas de inteligência artificial para interpretar exames e buscar informações sobre saúde, o que reforça a necessidade de orientá-los sobre como identificar informações confiáveis e utilizar essas ferramentas com segurança.

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Foi com o intuito de oferecer este apoio às pessoas que foi criado o Oncoguia?
 
Por eu ser psico-oncologista, me aproximei muito das dores, desafios, dúvidas e preocupações de quem recebe o diagnóstico de um câncer. Passei a estudar e surgiu a ideia de fazer o site Oncoguia, que tinha esse compromisso de ser um espaço de informação. Em 2009, ampliamos os serviços e e surgiu o instituto. Hoje temos atendimentos por todos os canais e grupos de autoajuda, e realizamos rodas de conversa e eventos. Muitos pacientes entram em contato porque se sentem sozinhos e precisam conversar com alguém que compreenda o momento difícil que estão enfrentando.
 
Quantos voluntários o Oncoguia possui atualmente?
 

No Oncoguia contamos com quase 100 voluntários. Temos um grupo de pacientes que atua como multiplicador de informações, oferecendo apoio a outras pessoas que também enfrentam o câncer. Além disso, temos aproximadamente 15 médicos no comitê científico e seis profissionais no comitê de saúde emocional, entre psicólogos, psico-oncologistas e psiquiatras. Também contamos com cerca de 15 pacientes que fazem parte do comitê de pacientes. 

Como funcionam as rodas de conversa e também os grupos de autoajuda?

No meio da pandemia, passamos a oferecer as rodas de conversa, que são espaços para o paciente falar dos seus sentimentos, medos e preocupação. É uma ferramenta voltada para as questões de saúde mental e emocional. E depois criamos também mais um serviço, que são grupos de autoajuda por tipo de câncer. O paciente pode se conectar e usar também dessa questão que o paciente traz tanto, que é o quanto é importante para ele conversar com outra pessoa que está passando pelo mesmo que ele. Temos mais de 15 grupos de apoio, organizados em salas no WhatsApp para cada tipo de câncer, como pulmão e intestino. Cada grupo conta com de 20 a 25 pacientes. Além disso, temos um grupo exclusivo para pacientes negros com câncer, criado a partir de um projeto contemplado por um financiamento internacional.
 

Como surgiu a iniciativa de criar um grupo específico para pacientes negros com câncer?

A iniciativa surgiu a partir de uma solicitação dos próprios pacientes, que manifestaram o desejo de ter um espaço exclusivo para compartilhar suas experiências e desafios. Realizamos um grupo focal para compreender melhor essas necessidades, e os participantes destacaram a importância de conversar com pessoas que compartilhassem vivências semelhantes, inclusive relacionadas à cor da pele e ao cabelo. É o maior grupo, tem aproximadamente 120 participantes.

Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos pacientes oncológicos negros?
 

Existem desigualdades raciais importantes no acesso ao cuidado oncológico. Mulheres negras, por exemplo, podem enfrentar mais dificuldades para realizar exames e receber o diagnóstico, além de apresentarem maior ocorrência de diagnósticos em estágios avançados, conforme os dados mencionados no relato. Também recebemos relatos de pacientes que não se sentiram adequadamente examinadas ou acolhidas pelos profissionais de saúde. As condições socioeconômicas também representam barreiras importantes. Quando esses fatores se somam à discriminação racial, as dificuldades podem se intensificar, tornando necessário olhar para as diferentes vulnerabilidades que afetam os pacientes.


O Oncoguia realiza quais atividades durante o Outubro Rosa?
 

Todos os anos, colocamos nossa campanha nas redes sociais e desenvolvemos ações de conscientização sobre o câncer de mama. Uma das principais iniciativas é o nosso Cursinho do Outubro Rosa, realizado pouco antes do início do mês. Convidamos pessoas interessadas em se preparar para participar da campanha, aprendendo quais informações são importantes e corretas para compartilhar durante esse período. O objetivo é preparar as pessoas para disseminar informações corretas e evitar a propagação de informações falsas. Outra forma de espalhar informação correta é por meio do projeto que criamos chamado Oito por todas. É um movimento que incentiva as mulheres a cuidarem umas das outras. A ideia é transformar o cuidado em uma prática coletiva. Incentivamos as mulheres a perguntarem às amigas se estão com a mamografia em dia, quando realizaram o último exame preventivo do colo do útero e como estão cuidando da própria saúde. Também estimulamos atividades conjuntas, como começar a praticar exercícios físicos com uma amiga. A proposta é que cada mulher escolha outras mulheres importantes em sua vida e incentive o cuidado com a saúde. O número foi escolhido porque uma em cada oito mulheres já teve ou vai ter câncer de mama.

Fazem eventos presenciais?

Sim, todos os anos temos o Fórum Nacional Oncoguia, que acontece em abril e está na 16ª edição. Recebemos em torno de 500 pessoas presenciais, pacientes, gestores de saúde, médicos e especialistas para debater políticas públicas, regulamentações e os direitos de quem vive com câncer no Brasil. Mais 2.000 pessoas participam on-line. Em novembro, vamos ter o 1º Congresso Brasileiro de Exercício Físico e Câncer das Américas

Quando e como vai ser este primeiro congresso dedicado ao tema?
 

Nos dias 31 de novembro e 1º de dezembro. É um espaço voltado à discussão dos avanços científicos, da atuação profissional e das políticas públicas relacionadas à atividade física e ao exercício físico na prevenção e no controle do câncer. Trata-se de um evento inclusivo, que estimula a participação de profissionais da saúde, pesquisadores, estudantes e pacientes oncológicos. Já temos 300 profissionais inscritos e 25 palestrantes estão confirmados.

Por que a ideia de fazer esse congresso?

É um tema muito importante na discussão de oncologia hoje. O exercício físico é como uma prescrição de remédio, tem que fazer. O tema está crescendo muito, acho que já virou rotina, a gente ouvir esse assunto falar, ser falado, mesmo nos congressos médicos, mas nunca tinha acontecido um voltado mesmo para o profissional de saúde, para as equipes multidisciplinares e para o paciente poder participar também. E aí nasceu a ideia da gente organizar isso junto com os profissionais.




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