Será que a escola pública nasceu para ensinar a obedecer?
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Costumamos pensar na escola pública como uma das grandes conquistas da democratização do conhecimento. Mas e se essa não tiver sido a principal motivação para a expansão da escola pública?
Uma pesquisa sobre as origens da educação de massas na Europa e nas Américas questiona explicações históricas bastante difundidas, como o avanço da democracia e as necessidades da industrialização. Ao investigar o que levou diferentes países a ampliar a escolarização, o estudo chegou a uma conclusão surpreendente: a expansão da educação primária esteve fortemente associada ao interesse das elites políticas em preservar a ordem social.
Para chegar a essa conclusão, o estudo reuniu documentos históricos, debates parlamentares e dados estatísticos de diferentes países ocidentais, buscando compreender o que levou os governos a ampliar sua intervenção na educação primária, regulamentando currículos, estabelecendo critérios para a formação e contratação de professores e instituindo a escolarização obrigatória.
Os resultados desafiam o senso comum. A Prússia, por exemplo, foi pioneira na organização de um sistema estatal de educação obrigatória quando sua economia ainda era predominantemente agrária. Já a Inglaterra, berço da Revolução Industrial, demorou a estabelecer um sistema nacional de ensino primário. A própria democratização, em muitos países, ocorreu muito depois da intervenção estatal na educação.
O que apareceu como um dos fatores mais fortemente associados à expansão da escolarização foram os conflitos internos, especialmente as revoltas populares que ameaçavam a ordem estabelecida. Diante do temor de perder o poder, as elites políticas passaram a enxergar na escola uma possibilidade de garantir a estabilidade social no longo prazo. A lógica era relativamente simples: ensinar crianças, desde cedo, a obedecer às regras e respeitar as autoridades poderia formar adultos menos propensos a contestar a ordem vigente.
A expansão da escolarização, portanto, não teria sido impulsionada prioritariamente por ideais de emancipação, mas pelo interesse político em preservar o status quo.
O que torna essa pesquisa particularmente interessante não é apenas a descoberta de uma motivação política pouco discutida, mas o contraste entre as finalidades que hoje atribuímos à escola e os interesses que historicamente impulsionaram sua expansão. Ou seja, hoje esperamos que a escola forme cidadãos capazes de pensar por si mesmos, mas sua expansão pode ter sido motivada justamente pelo desejo de formar cidadãos que não questionassem a ordem estabelecida.
E no Brasil? Que interesses políticos estiveram por trás da construção da nossa escola pública?
É o que vamos investigar na próxima semana.
Renata de Abreu Barbosa, economista e pedagoga.
Referência: PAGLAYAN, Agustina. Raised to Obey: The Rise and Spread of Mass Education. Princeton University Press, 2024.
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