São-bernardense lança livro sobre o impacto da violência de gênero
Jornalista Bruna Drews reflete sobre como o machismo estrutural molda a mente feminina e relata experiências pessoais
FOTO: André Henriques/DGABC

A jornalista são-bernardense Bruna Drews, 43 anos, retrata em seu livro de estreia, A Pílula Lilás (Editora Labrador, 224 págs., R$ 56), temas como a violência de gênero, o machismo estrutural e a misoginia nas redes sociais. A ex-repórter policial teve como motivação para a abordagem uma vivência pessoal, quando, em 2019, acusou o apresentador José Luiz Datena de assédio sexual.
No livro, Bruna relata o episódio, que ocorreu em 2018, quando trabalhava no programa Brasil Urgente, da Rede Bandeirantes, e revela bastidores inéditos do caso. “Na época, muitas mentiras foram divulgadas pela imprensa sobre o que aconteceu comigo. Eu não consegui contar a minha história; contaram por mim. Queria contar o que vivi, a partir da minha perspectiva”, destaca a jornalista em entrevista ao Diário.
“Em muitos casos de assédio sexual, principalmente quando envolvem homens em posições de poder, a vítima costuma ser questionada, desacreditada e colocada sob julgamento. Em vez de se discutir a conduta de quem cometeu o assédio, investigam a vida da mulher, suas escolhas, suas reações e até a sua credibilidade”, define a são-bernardense.
O caso foi arquivado pela Justiça de São Paulo em 2019 por Bruna ter perdido o prazo legal para formalizar a queixa criminal. A jornalista assinou um documento de retratação, inocentando Datena, mas, posteriormente, afirmou, em suas redes sociais, que foi induzida. A situação, somada à rotina intensa e desgastante da reportagem policial, impactou sua saúde mental.
Lançado em 20 de setembro, o livro faz referência, em seu título, ao movimento digital antifeminista Red Pill (pílula vermelha, em inglês), que, na avaliação de Bruna, cresce como reação de alguns homens à autonomia feminina e dissemina ideias que pareciam ultrapassadas em uma nova embalagem.
“Quando as mulheres passam a fazer suas próprias escolhas, há quem enxergue isso como uma ameaça. Esses movimentos oferecem respostas fáceis para as frustrações masculinas, colocando a culpa nas mulheres. As redes sociais ajudam a espalhar esse discurso, porque conteúdos de ódio geram engajamento e chegam a cada vez mais pessoas”, ressalta Bruna.
Em A Pílula Lilás, a violência contra a mulher é abordada para além do olhar externo. A autora entrelaça histórias reais, pesquisas, experiência jornalística e vivências pessoais para revelar os mecanismos culturais, psicológicos e sociais que levam mulheres a buscar aprovação, silenciar suas vozes e duvidar das próprias percepções.
“Durante mais de 15 anos trabalhando em televisão, cobri muitos casos de violência contra mulheres, feminicídios e histórias de vítimas que, além de sofrerem a violência, ainda precisavam enfrentar o julgamento da sociedade. Você começa a perceber que existem padrões que se repetem. Ao mesmo tempo, eu também estava vivendo meus próprios conflitos”, avalia.
Algumas das reportagens que mais a marcaram são citadas na publicação, que traz ainda experiências pessoais relacionadas à bulimia e à pressão estética. Bruna fala sobre a relação que as mulheres constroem com seu corpo e a cobrança constante da sociedade para se encaixarem em um padrão de beleza.
Formada em jornalismo pela Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), em São Bernardo, a profissional iniciou sua carreira na TV+, em Santo André, e trabalhou também na Record. Agora, Bruna pretende seguir a carreira como escritora.
“Quero continuar escrevendo, aprofundando as questões que me interessam e explorando também outros caminhos literários. Tenho vontade de lançar novos livros, inclusive de ficção. Para mim, a escrita é uma forma de contar histórias, provocar reflexões e abrir espaço para discussões que considero importantes.”
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