Livro recupera as vozes da Boca do Lixo

Jornalista Rafael Spaca traça perfis de quem estrelou e produziu as pornochanchadas das décadas de 1960 a 80

29/10/2026 | 08:38
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Houve um tempo, entre as décadas de 1960 e 1980, em que uma rua no Centro de São Paulo reunia tantas produtoras e distribuidoras de filmes que a via acabou apelidada de Hollywood brasileira. Diferentemente do distrito cinematográfico norte-americano, onde o dinheiro jorrava e se filmavam clássicos da sétima arte, a congênere tupiniquim abusava de roteiros que privilegiavam a exposição de corpos em vez de diálogos e narrativas mais aprofundados, todos de baixíssimo orçamento.

São os artistas, diretores, roteiristas e toda a fauna que estrelavam e produziam pornochanchadas e filmes eróticos às pencas na Rua do Triunfo, a chamada Boca do Lixo, que protagonizam Dossiê Musas da Boca (Editora Rua do Sabão, 540 páginas, R$ 120), o novo livro do jornalista Rafael Spaca. A obra já está à venda nas livrarias.
 
O trabalho de Spaca busca resgatar o que ele classifica de legado “fundamental para a engrenagem do nosso cinema, ainda muito reprimida e debochada pela crítica, pelos festivais e pela história”. “A pornochanchada revelou grandes talentos, empregou artistas e técnicos fundamentais na constituição da nossa história. Ela foi o esteio do, até hoje, único esboço de uma indústria criativa de cinema brasileiro da nossa história. Nenhum movimento fez nada parecido aqui no Brasil”, diz o autor em entrevista ao Diário.
 

Muitas das estrelas que brilharam em filmes produzidos na Boca do Lixo se consagraram depois na televisão. Inclusive a gaúcha Maria da Graça Meneghel, uma das atrizes de Amor Estranho Amor (1982), polêmico filme erótico em que a futura Rainha dos Baixinhos da Globo realiza cenas quentes com Marcelo Ribeiro, à época menor de idade.

O Dossiê recupera toda a atmosfera em torno do filme, que, diga-se, rendeu o prêmio de melhor atriz à protagonista Vera Fischer no 15º Festival de Brasília. Embora a presença de Xuxa esteja no centro da maior parte dos comentários relacionados ao longa-metragem, a apresentadora fez apenas uma pequena participação, uma figuração. Os principais nomes da trama dirigida por Walter Hugo Khouri (1929-2003) são os de, além de Vera, Tarcísio Meira, Íris Bruzzi e Mauro Mendonça.
 

A obra de Spaca relata que Xuxa moveu uma guerra nos tribunais para proibir a exibição de Amor Estranho Amor, do qual garante ter topado participar só para agradar o namorado da época, Edson Arantes do Nascimento (1940- 2022). Pelé, Rei do Futebol, era amigo do diretor. “Fiz e me estrepei.” A informação não é nova; ela foi revelada no livro O Cinema de Walter Hugo Khouri, lançado no ano passado pelo cineasta e poeta Donny Correia.

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O trabalho de Spaca, todavia, é cheio de informações inéditas. O autor conseguiu entrevistar o lendário cineasta e produtor chinês Juan Bajon, responsável por filmes da fase mais explícita da Boca do Lixo – Loucas por Cavalos (1986), estrelado por Márcia Ferro, é considerado pelo próprio diretor como sua obra-prima. No livro, Juan dá depoimento controverso ao atribuir o fim dos filmes de sexo explícito à Constituição de 1988, que acabou com a censura prévia sobre a produção cultural.
 

“No momento em que liberarem a cocaína, ninguém mais vai se interessar por isso, pode ter certeza. A melhor forma de combater a droga é liberar, com o sexo explícito aconteceu a mesma coisa”, sustenta Bajon. Spaca discorda. “O que matou as produções de sexo explícito foram o videocassete e a epidemia da Aids, que matou boa parte das pessoas que trabalhavam naquele tipo de fita”, contrapõe o autor.

Spaca tenta provar o tempo todo que classificar os filmes da Boca do Lixo de vulgares, alienados, chulos e destituídos de preocupações culturais e estéticas não passa de preconceito. “Criticar ou tentar diminuir uma expressão cultural era fácil para pessoas arrogantes em uma época de repressão, ditadura e tabus sexuais”, sustenta o autor em uma das passagens do livro, lembrando que as produções eram feitas sob o tacão do regime militar (1964-1985).
 
A verdade é que até mesmo os atores da época hoje rechaçam o passado. É o caso de Vera Gimenez, atualmente com 78 anos. Mesmo a contragosto, ela aceitou dar entrevista a Spaca, quando começou negando ter participado do movimento: “Você está muito mal informado sobre os meus filmes. Aponte um filme que fiz na Boca”. Ao ser lembrada de A Freira e a Tortura (1983), admite: “Era sobre a repressão, e eu não queria fazer, pois era com David Cardoso, que só produzia pornochanchada. Ele mandou um roteiro de um escritor famoso de São Paulo, e não havia nada do gênero. Infelizmente eu fazia a minha parte, e ele acrescentava um monte de coisas horríveis. Fiquei muito brava com ele durante anos e odeio esse filme”.

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